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A sombra do “roteiro”: Quando o VAR se torna protagonista

No futebol, há um ditado comum: “o jogo é decidido dentro das quatro linhas”. Contudo, nesta edição da Copa do Mundo, essa máxima parece cada vez mais sujeita a um asterisco. A crescente percepção de que a arbitragem tem sido utilizada como uma ferramenta de ajuste para favorecer seleções de maior peso, como a Argentina, transcende a simples reclamação de torcedor. Estamos diante de uma crise de credibilidade que coloca em xeque a própria essência do esporte.

A indignação que ecoa nas arquibancadas e nas redes sociais não nasce do nada. Ela é alimentada por uma sequência de decisões que desafiam a lógica técnica. A anulação de gols em lances de origem longínqua, a seletividade na aplicação de cartões e a estranha “imunidade” concedida a astros em campo sugerem que o critério não é universal. Quando faltas são invertidas para frear o ímpeto de times menores e a tecnologia, prometida como a salvaguarda da justiça, é operada de forma elástica, a sensação de que o resultado é conduzido torna-se inevitável.

É necessário separar, no entanto, o ruído da realidade. Enquanto teorias conspiratórias sobre intervenções diretas circulam, a investigação do FBI sobre a AFA — focada estritamente em crimes financeiros, lavagem de dinheiro e irregularidades contratuais — segue um curso paralelo. O erro é tentar conectar o fato jurídico à falha esportiva. Mas, se o FBI investiga o rastro do dinheiro, o torcedor comum investiga o rastro do apito. Ambos buscam a mesma coisa: a verdade em um ambiente viciado por interesses comerciais.

O cenário que se desenha, com uma suposta “final dos sonhos” entre Argentina e França, não parece um mero acaso do destino. Para a FIFA, o esporte há muito deixou de ser apenas uma disputa atlética para se transformar em um produto de entretenimento global. Em uma era de direitos de transmissão bilionários e patrocínios que dependem da presença de ícones como Messi e Mbappé, o risco da “surpresa” torna-se um inimigo do negócio. A arbitragem, sob essa ótica, funciona como um mecanismo de proteção ao investimento. O “peso da camisa” é o combustível de uma narrativa que garante audiência, estádios lotados e engajamento máximo.

A pergunta que fica é até quando o torcedor aceitará essa “gestão de roteiro”. A essência do futebol sempre foi a sua capacidade de ser indomável, onde o improvável derrota o gigante. Quando a tecnologia do VAR é utilizada não para corrigir erros crassos, mas para moldar o fluxo da partida conforme a conveniência do espetáculo, a FIFA não está apenas protegendo o seu produto; ela está degradando o valor da competição.

Se a final se confirmar conforme o script traçado pelas casas de apostas e pelas expectativas comerciais da entidade, o dano à imagem do futebol poderá ser irreversível. A desconfiança não é apenas sobre o resultado desta ou daquela partida, mas sobre a própria integridade do sistema. O futebol sobreviveu a décadas de escândalos de corrupção nos bastidores, mas será que sobreviverá à sensação de que, no final das contas, o vencedor já estava definido antes mesmo do apito inicial?

A bola ainda rola, mas, para muitos de nós, a mágica parece estar se perdendo sob o peso das decisões de gabinete. O esporte que amamos precisa, urgentemente, reencontrar a sua autonomia. Do contrário, a Copa do Mundo corre o risco de ser lembrada não pelos gols, mas pelo roteiro que insistiram em nos vender como realidade.

FÁBIO PAIVA
Jornalista, escritor, designer gráfico e analista em conteúdo multiplataforma


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