O sítio arqueológico do Cais do Valongo, no centro do Rio de Janeiro, reabriu em novembro após passar por obras de restauração. A restauração do monumento custou R$ 2 milhões e incluiu a instalação de sinalização educativa, painéis de exposição e grades de proteção.
Um sítio de patrimônio cultural mundial reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) desde 2017, o cais foi o principal porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas durante os séculos XVIII e XIX, segundo a autoridade brasileira de patrimônio histórico e artístico Iphan.
Os vestígios da estrutura histórica foram descobertos em 2011 durante escavações para o projeto de revitalização do porto da cidade.
“Essa memória deve ser preservada como um porto de nossa história e um farol de mudança que precisa garantir que o povo negro esteja no controle de suas trajetórias presentes e futuras — um caminho que se afasta cada vez mais do passado vicioso da escravidão”, disse a ministra da Igualdade Racial Anielle Franco.
Alexandre Nadai, coordenador de comunicação do Instituto Pretos Novos, dedicado à preservação do patrimônio afro-brasileiro tanto tangível quanto intangível, descreveu o cais como um marco de um crime contra a humanidade: a escravização de milhões de africanos nas Américas.
“As pessoas precisam aprender sobre o complexo Valongo para entender o que aconteceu e todos os crimes cometidos contra os africanos — crimes que ainda são cometidos contra o povo negro. Precisamos fazer as pessoas conhecerem essa história se quisermos mitigar todo esse racismo estrutural em que nossa sociedade se baseou.”
Pequena África
O Cais do Valongo está localizado em uma região conhecida como Pequena África (“Little Africa”), devido à sua população majoritariamente negra e à sua história ligada à diáspora africana, com locais como o Cemitério dos Pretos Novos (“Cemetery of the New Blacks”), um local de sepultamento para africanos que haviam chegado recentemente ao Valongo e morreram antes de serem vendidos, e a Pedra do Sal (“Salt Rock”), um dos berços do samba urbano do Rio.
“Não foi apenas a mão de obra escrava que chegou pelo cais. Eles também trouxeram uma nova possibilidade de civilização por meio de sua cultura, espiritualidade, costumes e sociabilidade, que marcam profundamente a sociedade brasileira hoje. Não se pode pensar no Brasil sem capoeira, samba ou maracatu”, disse Ivanir dos Santos, babalaô e professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Comitê de Gestão do Cais.
No último mês, o banco de desenvolvimento social do Brasil BNDES também revelou esforços para preservar e reconhecer a memória e o patrimônio africanos em Pequena África.
Entre as medidas está um acordo de cooperação técnica com diversos órgãos governamentais, incluindo Iphan e os ministérios da Cultura e da Igualdade Racial, visando elaborar um plano físico e espacial e estabelecer um distrito cultural na área em três anos.
Também foi anunciado um consórcio para lançar um edital público com o objetivo de fortalecer instituições culturais locais, criar uma rede de representantes da memória e do patrimônio africanos no Brasil e incentivar a criação de uma nova rota turística ligada ao afro-turismo nacional e internacional.
O consórcio é formado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), o Instituto Feira Preta e a Diaspora Black, e terá a tarefa de captar R$ 20 milhões — metade dos quais do Fundo Cultural BNDES e o restante de doadores.
Gestão
Após receber 1 milhão de escravizados, o local foi desativado em 1831 devido à proibição do tráfico transatlântico, informa o Iphan.
Em 1843, foi aterrado para a construção de um novo cais para receber a princesa Teresa Cristina, esposa do imperador Dom Pedro II, e renomeado Cais da Imperatriz.
Após ser descoberto em 2011, o Cais do Valongo foi protegido pelo Iphan em 2012, no mesmo ano em que foi aberto aos visitantes. Tornou-se Patrimônio Cultural da Cidade do Rio de Janeiro em 2013 e foi nomeado Patrimônio Mundial em julho de 2017.
No entanto, em 2019, o comitê de gestão, com um ano de existência e exigido pela Unesco para monitorar os esforços de preservação do sítio arqueológico, foi extinto após se reunir apenas duas vezes. O comitê foi recriado em março deste ano.
Fonte: Agência Brasil



