O ‘narcisismo coletivo’ se transformou em um vírus. Afinal, ele infecta e se espalha facilmente. E essa necessidade de que o próprio grupo seja elogiado, em detrimento dos outros, é uma dinâmica que ocorre em todas as épocas. Ele variou em intensidade e vimos o pior dele em certos momentos históricos, como a Alemanha Nazista.
Ele expressa uma certa nostalgia pela existência de “uma raça superior”. Embora, claro, não precise necessariamente ser sobre raça. Qualquer grupo que compartilhe algum elemento de identidade serve. E podemos estar falando de países, mas também de times de futebol ou profissões.
É muito óbvio no futebol. O narcisismo coletivo faz com que alguns torcedores literalmente não consigam aceitar as vitórias do adversário. Também os leva a fazer grandes demonstrações de poder, com cânticos, barulhos altos e rostos pintados para intimidar.
O mesmo vale para países e sentimentos nacionalistas. Algumas pessoas se irritam porque outra pessoa não gosta do seu país. Elas não toleram críticas sobre si mesmas e desejam ansiosamente que sua pátria seja admirada por todos e se destaque em tudo.
Claro, todos queremos nos sentir orgulhosos do nosso lugar de origem, ou do grupo ao qual pertencemos. No entanto, quando isso se transforma em situações como as acima, não é mais um sentimento saudável. Cedo ou tarde, leva à intolerância e à violência.
Do Orgulho de Grupo ao Narcisismo Coletivo
Qual é a diferença entre orgulho nacional, ou orgulho de grupo, e narcisismo coletivo? Uma pessoa infectada pelo vírus do narcisismo coletivo não está apenas orgulhosa do seu grupo, mas também precisa mostrar que é superior. No fundo, há insegurança. Por isso, elas buscam afirmação do que pensam comparando-se aos outros.
Em qualquer sentimento, atitude ou comportamento humano exagerado, provavelmente há algum neuroticismo. O narcisismo não é exceção. Quando construído no nível individual, as pessoas gostam de se exibir e projetar uma imagem de segurança para mascarar o que realmente estão passando.
O mesmo acontece no coletivo. É mais fácil o narcisismo coletivo florescer em grupos onde uma autoimagem fraca é compartilhada. Eles duvidam do seu status. É por isso que o que mais anseiam é o reconhecimento dos outros. E não só isso: também a derrota dos outros.
Um estudo realizado na Universidade de Varsóvia, na Polônia, indicou que grupos com narcisismo coletivo são geralmente compostos por indivíduos que se sentem bastante inadequados. O grupo é uma tentativa de compensar essa percepção de vazio.
Manipulação em Grupos Narcisistas
É normal que líderes autoritários surjam em grupos com narcisismo coletivo — às vezes totalitários. Para os seguidores, ter um líder invencível, ou pelo menos extremamente forte, lhes dá segurança. Então, esses líderes tendem a explorar a situação e defender a “superioridade” que os do grupo têm sobre os outros.
Outro estudo também concluiu que esses tipos de grupos gostam de teorias da conspiração sobre como os outros estão atrás deles. Ter um inimigo comum fortalece os laços no grupo. O próprio narcisismo os faz fantasiar sobre serem observados, invejados e potencialmente atacados.
Agressão e vingança ganham outro significado nesse tipo de grupo. Cometer atos violentos contra aqueles que não pertencem ao coletivo agora é “positivo”. Isso acontece especialmente se a agressão for contra um possível inimigo, conspirador ou aliado de inimigos.
O mesmo ocorre com a vingança, que grupos narcisistas não veem mais como uma paixão irracional e prejudicial, mas como um direito legítimo, baseado na aparente necessidade de se defender.
Diferente dos grupos com narcisismo coletivo, grupos que têm um senso saudável de orgulho coletivo têm efeitos positivos e edificantes. Esse tipo de orgulho realmente produz maior coesão e confiança mútua. O grupo não sente necessidade de difamar os outros ou se sobrepor aos diferentes.
Enquanto o orgulho razoável é o próprio fundamento da democracia, o narcisismo coletivo é a base do fascismo e uma das principais formas como ele exerce controle.
Fonte: Edith Sánchez


