“O Cinema Novo é um projeto realizado na política da fome e, por isso, padece todas as fraquezas decorrentes de sua
existência”, concluiu Glauber Rocha, um dos cineastas mais influentes da história brasileira, em seu manifesto “A Estética da Fome”, texto fundamental para entender as motivações e dilemas de um dos mais importantes movimentos artísticos da história do Brasil. Inspirado no movimento francês Nouvelle Vague e no cinema neorrealista italiano, o Cinema Novo nasceu do desejo de jovens cineastas de retratar a realidade do país de forma crítica, sem as normas de Hollywood, sem máscaras. Com uma estética tipicamente brasileira, as obras revelam as desigualdades do Brasil de maneira inédita.
Surgindo na primeira metade dos anos 1960, diretores descontentes com as grandes
empresas que priorizavam as chamadas chanchadas (comédias musicais inspiradas em Hollywood com temas de carnaval e burlesco) começaram a produzir um novo estilo de cinema no Brasil, com produções de baixo orçamento e um foco muito maior na originalidade.
“O Cinema Novo aprofunda a questão da representação popular. É essa ideia de trazer o povo para a tela, mostrando os rostos, costumes, modos de ser e dilemas políticos da classe média. Essa é a característica mais forte do Cinema Novo”, diz Fernão Pessoa Ramos, professor do Departamento
de Cinema da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que credita ao cineasta Nelson Pereira dos Santos, criador de clássicos como Rio 40 Graus (1954) e Rio Zona Norte (1957), o título de “pai de todos” os diretores do Cinema Novo.
Ramos, que é um dos organizadores de “Nova História do Cinema Brasileiro”, uma compilação com um panorama detalhado de toda a história cinematográfica brasileira, destaca três fatores essenciais que se deve levar em conta para entender o Cinema Novo.
O primeiro é o aspecto estilístico, simbolizado pelo famoso
lema de Glauber Rocha: “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça”, que sintetiza a nova experiência cinematográfica buscada pelos cineastas da época.
O segundo é o novo modo de produção criado pelos diretores no país, com técnicas e recursos completamente originais. E, por fim, o movimento se caracterizou por seu aspecto geracional, marcado pela ascensão de jovens
diretores que defendiam uma ruptura completa com o tipo de cinema produzido no país.
Tecnologia
Além de inovar nos aspectos artísticos, estéticos e ideológicos, o Cinema Novo também marca uma era de modernização tecnológica no setor audiovisual nacional. Os novos equipamentos, técnicas e materiais que surgiram nos anos 1960 foram fundamentais para o sucesso do movimento, explicou Ramos.
“Não há ideologia sem novas técnicas. A parte tecnológica foi essencial. As novas tecnologias de imagem e som que explodiram nos
anos 1960 vão desde emulsões fotográficas até novas lentes, câmeras mais leves, som. Não se pode pensar no Cinema Novo sem essas novas tecnologias dos anos 1960. Elas foram essenciais”, afirma ele.
Diretores e Filmes
Em Cinema Novo: a luta por uma estética nacional (“Cinema Novo: A Luta por uma Estética Nacional”), o professor Alexandre Figueirôa, doutor em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade de Paris III Sorbonne-Nouvelle, relata que o público brasileiro foi apresentado às expressões do Cinema Novo em 1962 com Os Cafajestes (1963), de Ruy Guerra. Guerra foi um dos principais expoentes do movimento,
e dirigiria depois filmes importantes como Os Fuzis (1963) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1970).
Outros diretores que ajudaram a definir o Cinema Novo incluem Paulo César Saraceni (O Desafio, Arraial do Cabo, Porto das Caixas), Joaquim Pedro de Andrade (O Couro de Gato, Garrincha: Herói do Povo, Macunaíma), Leon Hirszman (Pedreira de São Diogo, Maioria Absoluta) e Cacá Diegues (Escola de Samba Alegria de Viver, Ganga Zumba, A Grande Cidade), entre outros.
Apesar da grande contribuição de suas obras, nenhum desses diretores foi
tão representativo para o Cinema Novo quanto o baiano Glauber Rocha. Nascido em 1939, ele liderou as discussões sobre a necessidade de um cinema verdadeiramente nacional no Brasil. Além de filmes premiados como Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), Rocha é o autor de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), uma das obras mais importantes de toda a história do cinema brasileiro e o principal símbolo do Cinema Novo.
“Eu vejo Deus e o Diabo na Terra do Sol como o ponto de virada do Cinema Novo. Acho que é um filme chave, porque rompe com a tradição realista do neorrealismo e propõe uma nova perspectiva de fragmentação”, diz Fernão Ramos. “É um filme à frente de seu tempo”, concluiu.
Fonte: BrazilGovNews



