17 de abril de 2026 Um Jornal Bilíngue

New York,US
23C
pten
Desinformação sobre Autismo no Telegram Dispara na América Latina e Caribe – The Brasilians
, , , , ,

Desinformação sobre Autismo no Telegram Dispara na América Latina e Caribe

Nos últimos cinco anos, o volume de desinformação sobre transtorno do espectro autista (TEA) cresceu mais de 15 mil por cento nos grupos de chat latino-americanos e caribenhos no aplicativo de mensagens instantâneas Telegram. Foi ainda mais intenso nos primeiros anos da pandemia de COVID-19, quando disparou 635 por cento.

Os dados podem ser encontrados no estudo Desinformação sobre Autismo na América Latina e no Caribe (“Disinformation about Autism in Latin America and the Caribbean”), da Fundação Getulio Vargas e da associação brasileira de autismo Autistas Brasil.

A pesquisa analisou mais de 58 milhões de conteúdos publicados de 2015 a 2025 em 1.659 grupos de conspiração sobre autismo em 19 países da América Latina e Caribe. Mais de 5 milhões de usuários eram membros dessas comunidades, que muitas vezes são gerenciadas por antivacinas, negacionistas climáticos e terraplanistas, aponta o estudo.

“A pandemia de COVID-19 foi um marco no comportamento digital e na circulação de desinformação. A crise de saúde gerou medo, incerteza e uma intensa demanda por explicações, muitas vezes em ambientes de baixa confiança institucional. Chats de grupo que antes se restringiam a questões antivacina começaram a incorporar o autismo como uma nova frente de pânico moral. O que começou como desinformação durante a pandemia ganhou tração como um fluxo contínuo de teorias perigosas”, disse Ergon Cugler, autista, coordenador do estudo e pesquisador da FGV, à Agência Brasil.

Segundo o estudo, quase 47.300 mensagens publicadas nesses grupos continham informações imprecisas ou enganosas sobre autismo. O Brasil representou quase metade de todo esse conteúdo conspiratório sobre autismo circulando no Telegram durante esse período.

“Comunidades de teoria da conspiração brasileiras representam 46 por cento do conteúdo sobre autismo no continente, totalizando 22.007 publicações, alcançando potencialmente até 1, 726,364 usuários, e somando exatamente 13, 944,477 visualizações”, diz o texto.

Causas espúrias, curas falsas

Nesses chats de grupo do Telegram, os pesquisadores encontraram mais de 150 causas incorretas ou falsas de TEA: radiação de redes 5G, vacinas, inversão do campo magnético da Terra, consumo de Doritos e até chemtrails.

Também foram encontradas 150 curas falsas para autismo – algumas defendendo o uso de produtos ineficazes, até perigosos, com danos potencialmente irreversíveis. Essas chamadas soluções milagrosas, diz o estudo, são vendidas principalmente por influenciadores e grupos que exploram emocional e financeiramente os cuidadores, transformando engano em lucro.

Explorando a fé

“Fés das pessoas também são manipuladas com promessas de cura espiritual e tentativas de desencorajar o tratamento médico, reforçando a culpa de pais e cuidadores. Essas teorias sobre autismo não são isoladas; elas vêm em combinação com discurso antivacina, ‘a nova ordem mundial’, negacionismo científico e ideologia antisinstitucional. O estudo mostra como essas redes se organizam, criam significado, alimentam desconfiança e capitalizam a angústia coletiva”, disse Guilherme de Almeida, autista, coautor do estudo e presidente da Autistas Brasil.

Modus operandi

Os indivíduos por trás dessas comunidades do Telegram utilizam um vasto arsenal de estratégias para disseminar desinformação, acrescentou Cugler.

“Primeiro, atuam como bolhas de reforço, ou seja, espaços onde os membros compartilham as mesmas ideias, criando um senso de validação mútua. Segundo, fazem uso pesado de linguagem científica, empregando jargões fora de contexto para dar às teorias uma aparência de credibilidade. Finalmente, muitos desses chats de grupo operam com estratégias típicas de marketing digital. Constroem narrativas alarmistas seguidas pela oferta de soluções milagrosas, vendendo produtos como dióxido de cloro, terapias alternativas e até cursos de desverminação intestinal. Em muitos casos, o mesmo perfil que espalha desinformação também lucra com a venda dessas soluções”, observou.

“Não se trata de casos isolados”, acrescentou. “Estamos lidando com uma interação complexa entre economia, política e cultura. A desinformação desempenha um papel central nesse jogo. Ela abre caminho para o negócio da intervenção e reforça a racionalidade de que a existência autista não tem valor a menos que possa ser ‘melhorada’ ou ‘curada’.”

Rumo a uma solução

Para enfrentar o problema, argumentaram os especialistas, não bastam apenas políticas públicas voltadas para o autismo, mas também informação. Cugler também acredita que aqueles que lucram com conteúdo espúrio devem ser responsabilizados criminalmente, e que as plataformas de mídia social devem adotar uma postura mais responsável, limitando a circulação de material prejudicial à saúde pública. Outro aspecto vital, mencionou, é a educação, “para fortalecer o pensamento crítico”.

O que é TEA?

Transtorno do espectro autista é caracterizado por dificuldades na comunicação e interação social, e pode envolver outras questões como comportamento repetitivo, interesses restritos, problemas para lidar com estímulos sensoriais excessivos (sons altos, cheiros fortes, multidões), dificuldades de aprendizado e a adoção de rotinas altamente específicas.

Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde, um em cada 160 crianças no mundo tem TEA, mas a organização enfatiza que essa cifra representa uma estimativa, e que pesquisas mostraram números significativamente mais altos. Autistas Brasil calcula que cerca de 5,6 milhões de pessoas foram diagnosticadas como autistas no Brasil.

Fonte: Agência Brasil


  • Ator Juca de Oliveira morre aos 91 anos

    Ator Juca de Oliveira morre aos 91 anos

    O Brasil perdeu na madrugada deste sábado (21) um dos nomes mais expressivos das artes cênicas nacionais. O ator, autor e diretor Juca de Oliveira faleceu aos 91 anos em São Paulo, vítima de pneumonia associada a uma condição cardiológica. A informação foi confirmada pela assessoria da família à TV Globo, veículo que noticiou o…