Um dos planos mais inovadores da economia mundial completou 30 anos no último mês. Exatamente três décadas atrás, o cruzeiro real, uma moeda corroída pela hiperinflação, deu lugar ao real, que estabilizou a economia brasileira. Uma aposta arriscada que envolveu uma espécie de engenharia social para desindexar a inflação após sucessivos planos econômicos fracassados.
Em meio a tantos indexadores criados para reajustar preços e salários, a equipe econômica do então governo Itamar Franco criou um super-indexador: a Unidade Real de Valor (URV). Por três meses, todos os preços e salários foram decompostos em cruzeiros reais e URV, cuja taxa de câmbio variava diariamente e era mais ou menos atrelada ao dólar. Até o dia em que o real foi criado, R$1 valia 1 URV, que por sua vez valia 2.750 cruzeiros reais.
Indexando toda a economia, a URV conseguiu realinhar o que os economistas chamam de preços relativos, que medem a quantidade de bens e serviços diferentes que a mesma quantidade pode comprar. Combinada com uma taxa de câmbio fixa, inicialmente, e juros altos para atrair capital estrangeiro, o plano funcionou. Em junho de 1994, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 47,43%. O indicador caiu para 6,84% no mês seguinte e apenas 1,71% em dezembro de 1994.
Plano ‘Larida’
Chamado de Plano ‘Larida’, em homenagem aos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida, a ideia de uma moeda de ancoragem atrelada à moeda oficial foi proposta pela primeira vez em 1984. Em vez de simplesmente cortar os gastos públicos para conter a inflação, como defende a teoria econômica ortodoxa, o Plano Larida foi parcialmente inspirado em um experimento não ortodoxo em Israel no início dos anos 1980.
No país do Oriente Médio, preços e salários foram congelados temporariamente para eliminar a inércia inflacionária, pela qual a inflação passada alimenta a inflação futura. Depois, um pacto social foi feito para aumentar os preços o mínimo possível, e o congelamento foi levantado, reduzindo a inflação israelense.
Uma ideia semelhante foi implementada no Plano Cruzado em 1986. No entanto, a estabilização fracassou porque o congelamento durou mais do que o esperado e, temendo repercussões nas eleições parlamentares daquele ano, as primeiras após a ditadura, o governo José Sarney não implementou medidas de controle monetário (juros altos) ou medidas fiscais (reestruturação das contas públicas). Na época, não havia Secretaria do Tesouro Nacional para centralizar as contas do governo, e os gastos públicos eram parcialmente financiados pelo Banco Central e pelo Banco do Brasil.
Consenso político
O sucesso do Plano Real, no entanto, não se deveu apenas à URV. Em um raro momento de consenso político e cansaço com a hiperinflação, o Congresso Nacional foi importante na aprovação de medidas que limpariam as finanças públicas. Uma delas foi a criação do Fundo Social de Emergência, que desvinculou parte das receitas do governo e tornou a execução do Orçamento mais flexível na segunda metade de 1993.
Um dos criadores do Plano Real e presidente do Banco Central durante o governo Fernando Henrique Cardoso, Gustavo Franco diz que o Plano Real envolveu reunir apoio político antes de ser colocado em prática.
“O Plano Real é uma política pública que envolveu pessoas que entendem do assunto, que conversam entre si e se organizam sob liderança política para explicar conceitos e reunir apoio político. Depois, houve todo um processo de engenharia social para fazer acontecer uma empreitada coletiva tão importante, que precisa envolver um país inteiro. Isso não é simples”, destacou o economista no lançamento do livro que celebra os 30 anos do plano.
Reconhecimento
Três décadas depois, economistas de diversas escolas de pensamento reconhecem o sucesso do Plano Real em acabar com a hiperinflação.
“O maior ganho do Plano Real foi trazer a inflação para níveis civilizados, como em qualquer país com um sistema econômico minimamente normal. Hoje, a inflação é de 4% a 5% ao ano. O mérito do Plano Real foi principalmente civilizatório. Do jeito que era no Brasil, quem mais sofreu as consequências foram os mais pobres”, diz o economista Leandro Horie, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), à Agência Brasil.
Fonte: Agência Brasil



