A administração do presidente dos EUA Donald Trump nomeou Darren Beattie para um cargo estratégico com influência direta sobre a política dos EUA em relação ao Brasil, em uma decisão que pode impactar o equilíbrio diplomático entre os dois países. A informação foi divulgada pela Reuters na sexta-feira (27), com base em fontes familiarizadas com a nomeação.
De acordo com a Reuters, Beattie, que também atua como Secretário de Estado Adjunto Interino para Assuntos Educacionais e Culturais, foi escolhido para atuar como consultor sênior responsável por supervisionar questões relacionadas ao Brasil. Um alto funcionário do Departamento de Estado confirmou que ele “currently serves as a senior advisor for Brazil Policy.” O Ministério das Relações Exteriores do Brasil não se pronunciou.
A nomeação ocorre em um contexto de relações diplomáticas marcadas por avanços e retrocessos. Em agosto, Beattie provocou uma reação do governo brasileiro ao publicar na rede X críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem chamou de “the main architect of the censorship and persecution complex directed against [Jair] Bolsonaro.” Na época, o Itamaraty convocou o principal diplomata dos EUA em Brasília para prestar esclarecimentos.
Moraes liderou os processos criminais que resultaram na condenação de Jair Bolsonaro por participação em uma trama golpista para anular os resultados da eleição presidencial de 2022. O ex-presidente cumpre pena de 27 anos de prisão. Meses antes, em julho, os Estados Unidos haviam imposto sanções ao ministro do Supremo, alegando que ele autorizou detenções preventivas arbitrárias e restringiu a liberdade de expressão em casos relacionados às tentativas de golpe. As sanções foram posteriormente revogadas.
Após o anúncio das sanções, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro agradeceu publicamente a Beattie, também pela rede X. Enquanto isso, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) surge como principal opositor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial marcada para outubro.
Fontes do governo brasileiro, falando à Reuters, afirmaram que ainda não tinham conhecimento formal da nomeação e avaliaram que o impacto da escolha dependerá do grau de influência interna que Beattie exercerá no Departamento de Estado. No entanto, as declarações públicas anteriores do consultor estão causando preocupação.
As relações entre Brasília e Washington enfrentaram turbulência após a posse de Trump. Além das sanções contra autoridades brasileiras, os Estados Unidos impuseram tarifas sobre produtos brasileiros, medida que Trump justificou como resposta ao que chamou de perseguição injusta contra Bolsonaro. A situação começou a mudar após uma reunião entre Lula e o presidente dos EUA durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, em setembro, quando Trump afirmou que eles tiveram “immediate chemistry.” Até o fim do ano, algumas tarifas foram reduzidas.
O próximo momento decisivo pode ocorrer nas próximas semanas. Lula afirmou que pretende viajar a Washington em março, o que pode redefinir o curso do diálogo bilateral.
Beattie ocupa outros cargos importantes. Além de seu novo papel relacionado ao Brasil, ele é o chefe interino do Bureau de Assuntos Educacionais e Culturais no Departamento de Estado e preside o U.S. Institute of Peace, uma organização financiada pelo Congresso dedicada à mediação de conflitos internacionais. Em dezembro, a administração Trump anunciou uma mudança de nome para a instituição para o “Donald J. Trump Institute of Peace,” embora haja questionamentos sobre a autoridade legal para a mudança.
Durante a campanha presidencial de 2024, Beattie afirmou que a comunidade de inteligência americana poderia estar por trás de tentativas de assassinato contra Trump. Ele também enfrentou críticas após escrever nas redes sociais que “competent white men should be in charge if you want things to work.”
A seleção de Beattie para a política focada no Brasil ocorre em meio a esse histórico de controvérsias e adiciona um novo elemento de incerteza à relação entre as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental, às vésperas de uma possível visita de Lula à capital dos EUA.
Source: brasil247.com



