Estudos anteriores mostraram que uma resposta imune potente pode fazer com que pessoas fiquem gravemente doentes ou morram de Covid-19. Uma resposta imune mais fraca em crianças pode indicar que elas eliminam o vírus antes que ele cause danos graves ao corpo e explica por que elas geralmente são poupadas dos sintomas graves da doença. De acordo com a imunologista da Universidade Columbia, em Nova York, Donna Farber, em um estudo publicado na Nature Immunology, crianças podem ser infecciosas por um período mais curto. A Dra. e seus colegas analisaram anticorpos contra o coronavírus em quatro grupos de pacientes: 19 doadores adultos de plasma convalescente que se recuperaram da Covid sem serem hospitalizados; 13 adultos hospitalizados com síndrome do desconforto respiratório agudo resultante de Covid grave; 16 crianças hospitalizadas com síndrome inflamatória multissistêmica, uma condição rara que afeta algumas crianças infectadas; e 31 crianças infectadas que não apresentavam a síndrome. Cerca de metade do último grupo de crianças não apresentou sintomas.
As crianças produziram principalmente um tipo de anticorpo, chamado IgG, que reconhece a proteína spike na superfície do vírus. Por outro lado, adultos produziram vários tipos de anticorpos contra spike e outras proteínas virais, e esses anticorpos eram mais potentes em neutralizar o vírus.
As crianças tinham “resposta protetora menor, mas também menor gama de resposta de anticorpos”, disse Farber. “É porque essas crianças não estão sendo infectadas de forma tão grave.”
No entanto, outros especialistas recomendaram cautela na interpretação dos resultados porque o tipo de anticorpos do corpo varia ao longo de uma infecção. O imunologista do Instituto Karolinska, em Estocolmo, Petter Brodin, diz que este estudo corre o risco de comparar maçãs com laranjas.
Outros especialistas alertaram que o estudo é pequeno demais para concluir como a resposta imune pode variar em crianças de diferentes idades. De acordo com a imunologista da Universidade Rutgers, Dra. Maria L. Gennaro, é vital entender o que acontece nas crianças, sua natureza e como elas contribuem para a disseminação do vírus na comunidade.
Os pesquisadores também não conseguiram explicar por que as crianças têm uma resposta de anticorpos mais limitada. Ter menos tipos de anticorpos pode parecer uma coisa ruim, mas “ter uma tonelada de anticorpos não é necessariamente um marcador de algo bom”, disse Dra. Bhattacharya. “Geralmente significa que algo deu errado no início da resposta.”
Pelo menos outro estudo sugeriu que crianças têm um sistema imune inato robusto, projetado para combater os muitos novos patógenos que encontram. Essa primeira linha de defesa pode eliminar a infecção cedo, sem necessidade de outros anticorpos. Outra possibilidade é que as crianças tenham alguma proteção — na forma de células imunes chamadas células T de memória — de encontros anteriores com coronavírus do resfriado comum. “É tudo inato? Alternativamente, poderia haver alguma memória pré-existente?”, disse Dra. Bhattacharya. “Acho que ambas são possíveis.”
VIVIANE FAVER
Jornalista
vfaver@gmail.com



