Quando Carlos Magno de Medeiros Morais afirma que “O Sertão resiste diante das mudanças climáticas”, ele não está falando de uma abstração acadêmica. Está falando de um território concreto, uma experiência vivida e um modelo agrícola produtivo que perdura há gerações na região Semiárida brasileira.
Com mestrado em Agroecologia e coordenação do Centro Sabiá, ele construiu sua carreira nos sertões da Paraíba. Sua defesa da agricultura familiar nasce dessa experiência e ganha força diante da emergência climática.
A região Semiárida brasileira é a mais populosa do mundo. Aproximadamente 30 milhões de pessoas vivem em um território onde as chuvas se concentram em poucos meses e a evaporação supera a precipitação. A isso se soma a concentração das chuvas em três ou quatro meses e longos períodos de seca. Com as mudanças climáticas, a situação piora.
Pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais indica que a região Semiárida é um dos territórios mais vulneráveis do país. Carlos cita o exemplo de Jataúba, na divisa entre Pernambuco e Paraíba, que em poucos anos já perdeu 40% de sua média anual de chuvas. Além disso, a irregularidade das chuvas aumentou: o volume anual pode cair em poucos dias, impossibilitando o plantio.
É nesse contexto que a agricultura familiar revela sua centralidade.
Onde está a comida do Brasil?
Quase metade da agricultura familiar brasileira está concentrada no Nordeste, e grande parte dela na região Semiárida. É predominantemente agricultura de sequeiro, dependente dos padrões de chuva.
Sem grandes sistemas de irrigação, os agricultores plantam na hora certa, integram áreas cultivadas e vegetação nativa, diversificam culturas e garantem a segurança alimentar mesmo em condições adversas. Esse modelo, baseado na diversidade e na adaptação ao território, é o que Carlos considera capaz de sustentar a segurança alimentar da região.
Segundo ele, enquanto o agronegócio opera com monoculturas vulneráveis a eventos climáticos extremos e dependentes de insumos externos, a agricultura familiar trabalha com sistemas mais resilientes, conectados ao solo, à biodiversidade e ao conhecimento acumulado ao longo de gerações.
A defesa da agricultura familiar está ligada a um conceito construído ao longo de três décadas pelos movimentos sociais do Nordeste brasileiro: conviver com o semiárido.
“Se sempre vivemos aqui, por que temos que sair? Por que temos que brigar com a seca?” Em vez de tratar o clima como inimigo, a proposta é se adaptar a ele, valorizando o conhecimento tradicional e incorporando a ciência. Captação de água da chuva, manejo agroecológico, preservação do bioma Caatinga e diversificação produtiva são estratégias que aumentam a resiliência das famílias agricultoras.
“É essencial que as universidades brasileiras se concentrem em tentar resolver esses problemas também. O conhecimento científico nos ajuda a entender a realidade e agir da melhor forma. No entanto, isso não pode ser feito sem olhar também para o conhecimento acumulado da população”, disse ele.
Segundo o pesquisador, a resposta para a crise climática e alimentar não virá de soluções isoladas ou impostas de cima para baixo. Ela surge da combinação de ciência, conhecimento ancestral e fortalecimento da agricultura familiar — uma equação que, na visão dele, é simples e urgente: é dessa aliança que pode emergir a garantia de comida no prato em tempos de instabilidade climática.
A realidade é que a crise climática já impacta a produção de alimentos no mundo todo. Enchentes no Sul e Sudeste, secas prolongadas no Nordeste, ondas de calor recordes. O sistema alimentar industrial está mostrando suas fraquezas.
Dos sertões da Paraíba, Carlos Magno argumenta que a resposta não virá de soluções milagrosas ou exclusivamente tecnológicas. Virá do fortalecimento daqueles que já produzem alimentos de forma adaptada ao território.
A afirmação pode soar ousada, mas na região Semiárida é lugar-comum. Onde as chuvas diminuem e a terra exige cuidado, quem continua produzindo alimentos não é o modelo concentrado, mas as famílias agricultoras. Talvez o futuro da alimentação mundial esteja menos nas commodities e mais nesses territórios que aprenderam, há séculos, a conviver com crises recorrentes.
Source: brasil247.com



