Na dança, os olhos do público frequentemente se fixam nas piruetas perfeitas, linhas elegantes e técnica dos movimentos no palco.But há algo que não pode ser ensaiado, que não se aprende em sala de aula e que define a grandeza e o valor de um bailarino: seu caráter. Fora dos holofotes, é nos bastidores e nas relações cotidianas que se revelam as atitudes que realmente sustentam seu sucesso: Humildade no processo, respeito pelos colegas e ética na convivência.
O olhar dos jurados e o silêncio dos valores
No Brasil, onde esse esporte artístico ainda luta por reconhecimento – não sendo valorizado como um espaço profissional –, discutir esses valores se torna urgente. Existem (pelo país) grandes festivais, seleções e competições, como Passo de Arte, Vida ao Corpo e Joinville Dance Festival, que premiam, selecionam e dão oportunidades a bailarinos e artistas talentosos. O festival YAGP Brasil (Youth American Grand Prix) é o mais querido quando se trata de bolsas, oportunidades e carreiras internacionais. Ele acontece anualmente e, se os bailarinos se saírem bem, avançam para as finais em Nova York.
Acontece que – não só nesses festivais e competições, mas também em apresentações e espetáculos – os jurados e olheiros avaliam e buscam técnica, o corpo físico perfeito e presença de palco. Dessa forma, esquecemos que a arte também é feita do que não se vê: escuta, cuidado e humanidade fora da cena.
Diretora do Ballet Márcia Lago e ex-bailarina, a profissional Márcia Lago comenta que o júri se baseia apenas no que vê no palco, que não é mais do que isso: “É como se vissem uma foto. Não veem um filme. Uma foto é algo momentâneo. É algo que você olha e vê se gosta ou não. Se gosta, diz: ‘Nossa, legal, eu gostaria de dar uma chance para essa pessoa’”.
Talvez seja hora de olhar além do palco e refletir sobre que tipo de artistas estamos formando e a quem a dança está dando voz.
Só a habilidade técnica importa?
Priscila Azzini, bailarina, professora de dança e coreógrafa com formação em educação física e teatro, diz que, além da habilidade técnica de um artista, ela valoriza o brilho nos olhos deles. O desejo de aprender e o interesse no que se faz são elementos notáveis para qualquer professor. Além disso, ela aponta que o trabalho árduo constante e a disciplina são essenciais para o desenvolvimento de um grande bailarino, e que o sucesso no palco é só a consequência: “Claro, tem talento, tem dom, tem uns mais artísticos, que têm musicalidade mais forte e força física. Mas ter amor pelo que faz, ele sentir isso, você sentir que ele ama estar ali, é muito importante”. Em outras palavras, o que verdadeiramente forma um artista da dança para Priscila é o afeto pela rotina e a persistência: “É isso que faz um bailarino, esse amor pela sala de aula. Porque todo mundo gosta de se apresentar, de fazer um bom personagem. Mas gostar do dia a dia, gostar de tomar aula, sabe? Isso também vale”, e conclui dizendo que se trata de ter a humildade de ouvir quem está corrigindo e observando você.
Márcia aponta que a habilidade vem em terceiro lugar e que ética e emoções vêm primeiro: “O caráter da pessoa, o jeito que ela conduz as coisas, a honestidade em relação ao trabalho e como ela se propõe, é o mais importante”.
A lacuna entre o talento no palco e a personalidade
A diretora da instituição, com anos de experiência no mundo do balé, transmite a mensagem de que estar fora do palco não é tão diferente de estar nele, quando se trata de ações e jeito de ser: “Eu acho que, se a pessoa tem um bom caráter, se é humilde, se tem coisas boas para transmitir, ela vai transmitir no palco. Se não tem esse leque de coisas boas no coração, na cabeça, não vai conseguir transmitir emoção… Aí vira uma coisa falsa.”
Não só no Brasil, é comum ver que bailarinos e artistas em geral apresentam diferenças no seu sucesso dentro e fora do palco. Em outras palavras, o desempenho técnico, as piruetas e os movimentos de braços são perfeitos, enquanto o carisma, a empatia e o respeito pelos colegas deixam muito a desejar nos bastidores e no camarim. Assim, surge a seguinte pergunta: É realmente preciso ter uma boa personalidade para ter sucesso diante do público?
Isabella Gasparini, bailarina profissional e primeira solista do Royal Ballet em Londres, tenta responder à pergunta: “Dá sempre para ver o caráter do artista quando ele está no palco”. Bel diz que pessoas que só focam no reconhecimento ou em ter o pé perfeito não chamam tanto a atenção dela quanto aquelas que fazem para se sentirem bem. “Os que realmente me tocam são os que são honestos, sempre humildes, sabe? Em vez de alguém que está forçando algo ou querendo se exibir. Que está pensando no ego próprio e não no que está realmente dando para o público.”
Priscila, em acordo com Márcia, aborda essa questão dizendo que a personalidade e o caráter de um bailarino afetam diretamente e intensamente o desempenho no palco. “Eu acho que a alma, o que a gente tem dentro de nós no palco, se amplifica mil vezes. Uma pessoa pode estar no meio do holofote, mas se não tem luz, não funciona de verdade. Porque a luz vem disso, vem da ética de uma pessoa, vem da bondade, é de lá que vem”, comentou, se emocionando.
Isabella apresentou uma perspectiva mais acadêmica ao falar sobre o comportamento artístico fora do palco, usando como exemplo um bailarino convidado para se apresentar no Royal Ballet em três espetáculos e suas atitudes durante as aulas e ensaios: “Eu me apaixonei pelo jeito que ele trabalhava na aula. Antes da aula, ele aquecia, fazia praticamente uma barra. Eu admiro muito essa dedicação e respeito. As pessoas pedem se podem ficar na barra do lado, sabe?”, admira a profissional. “Às vezes, entra alguém que não conhecem, que não sabe nada. E essas pessoas, em vez de serem receptivas e darem espaço, só olham com cara feia”. Para resumir seu raciocínio, ela acrescenta: “Enfim, eu acho que tudo que a gente faz fora do palco vai se refletir quando dançamos, sabe? Mas se você é uma pessoa nojenta que ninguém gosta, a energia muda. Você não sente aquele calor da pessoa. Aquele apoio. Acho que isso afeta muito”.
O lado sombrio da dança que não chega aos olhos do público
Alguns dizem que o mundo da dança é competitivo, seletivo e às vezes cruel. Em uma audição importante, por exemplo, é raro encontrar um bailarino que te dê um olhar amigável, especialmente porque te veem como concorrência e alguém que pode tomar o lugar deles.
Ao falar da sua trajetória profissional até chegar ao Royal Ballet em Londres, Isabella comenta: “Rivalidade existe em todo lugar. E falsidade também.” A bailarina comenta que nos bastidores de uma apresentação, o clima é de fazer um espetáculo bonito e harmonioso. O problema seria nas aulas e ensaios.
Ao falar de balé clássico, Priscila aborda as dificuldades que todo bailarino enfrenta: a padronização do corpo e seu rigor, mesmo que você tenha o lado artístico perfeito. “Se a bailarina entra no palco pensando nisso e a mente não está preparada, engole ela. Ela congela.” Além disso, Priscila menciona que muitos bailarinos conseguem oportunidades únicas de forma suja e conta a época em que suas colegas a rejeitaram em uma seletiva e disseram que, se ela não se lembrasse do propósito ali, desistiria. “Todo mundo que está perto de você, que está com você, quer que você quebre a perna na próxima pirueta. Infelizmente, é uma realidade. Todo mundo lutou muito por aquilo e alguns não levam a competitividade de forma saudável, levam de forma ruim.”
Márcia Lago explora seus valores em relação a como enfrentar essa rivalidade: “Você tem que sempre ter em mente que quer fazer o seu melhor e não provar para ninguém que é o melhor. Tem que ser para você e por você. Sem tentar se preocupar com o que as pessoas pensam” e acrescenta que a arte é subjetiva quando se trata de julgamentos, que há gosto para tudo e às vezes é difícil um bailarino agradar um juiz. Para concluir, ela comenta um pouco sobre a comparação com base na própria experiência: “Eu acho que não precisamos ficar olhando para o lado ou prestando atenção nos outros para avançar. A comparação não é saudável”.
EDUARDA DE NADAI GENERATO
Jornalista



