Parafraseando Jane Austen, é uma verdade universalmente reconhecida que uma mulher que se aproxima da meia-idade passará por mudanças físicas que a surpreenderão. Um exemplo são os olhos secos. Acontece que essa condição ocular crônica é muito comum entre mulheres na perimenopausa e depois dela.
Hilda Hernandez Nash conta que seus sintomas surgiram de repente no início deste ano, certa manhã, enquanto dirigia para o trabalho. “De uma hora para outra, não conseguia mais tolerar minhas lentes de contato”, lembra. “Meus olhos pareciam uma lixa.”
Em poucos dias, seus olhos ficaram vermelhos, lacrimejantes e inchados. Em determinado momento, ela conta que teve dificuldade para focar a visão. “Eu simplesmente não queria abrir os olhos. Não suportava a luz.”
No início, Hernandez Nash, que está no fim dos 40 anos, pensou que pudesse ter algum tipo de conjuntivite. Mas, ao procurar um oftalmologista, descobriu que todos os sintomas apontavam para olhos secos. Pesquisas sugerem que cerca de metade das mulheres nos anos de transição para a menopausa apresenta sintomas.
“O olho seco é incrivelmente comum”, afirma Lauren Gormley, optometrista e professora assistente de oftalmologia do Wilmer Eye Institute, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins. Embora homens também apresentem olhos secos, “estudos de grande escala mostraram que a taxa de olho seco em mulheres acima de 50 anos é o dobro da observada em homens da mesma faixa etária”. E a prevalência aumenta com a idade.
O papel dos hormônios
Gormley explica que a condição ocorre quando os olhos não conseguem produzir lágrimas suficientes ou quando elas evaporam muito rapidamente. Uma das causas mais comuns é um problema nas glândulas meibomianas, glândulas produtoras de óleo nas pálpebras que evitam que as lágrimas sequem depressa demais.
“O óleo pode não funcionar adequadamente, o volume produzido pode ser baixo demais, pode ser espesso demais ou pode não conseguir ser liberado para o filme lacrimal”, diz Gormley. “É aí que entra a relação com a menopausa.”
Isso acontece, explica, porque os hormônios sexuais — especialmente os andrógenos — ajudam a regular a produção de óleo nessas glândulas. À medida que os níveis de andrógenos caem com a idade e a menopausa, as glândulas oculares produzem menos óleo e de qualidade inferior, “o que leva a uma evaporação mais rápida das lágrimas e a um aumento da inflamação na superfície ocular, que é essencialmente o que caracteriza o olho seco”, afirma Gormley.
As glândulas lacrimais, responsáveis pela parte aquosa das lágrimas, contêm receptores de estrogênio, e é provável que mudanças nos níveis desse hormônio também tenham um papel no olho seco em mulheres, embora ainda haja muito que não sabemos, afirma a médica Kelly Nichols, diretora da Escola de Optometria da Universidade do Alabama em Birmingham.
Existem também muitos outros fatores que podem contribuir para o olho seco, diz Nichols. “Infelizmente, passamos muito tempo diante de computadores — o dia inteiro, todos os dias.”
Quando fixamos o olhar em telas, piscamos com menos frequência e, por isso, nossas lágrimas não se espalham tão bem. O uso de lentes de contato também pode causar olho seco, assim como muitos medicamentos comuns, como remédios para pressão arterial e antidepressivos. Alergias e problemas de pele, como rosácea e eczema, também podem contribuir.
O impacto na vida cotidiana
Nichols afirma que pesquisas mostram que o olho seco pode afetar a rotina, reduzindo o desempenho no trabalho e causando dificuldades para ler e dirigir.
“Eu diria: você deve procurar um médico? Sim. Porque seus olhos não deveriam prejudicar sua qualidade de vida”, afirma Nichols.
E os sintomas de olho seco não devem ser ignorados, porque a condição pode piorar, alerta Preeya Gupta, oftalmologista em Raleigh, na Carolina do Norte, e pesquisadora da doença do olho seco. À medida que a doença progride, as células da superfície da córnea podem começar a se deteriorar, explica.
“Quando isso acontece, a visão fica embaçada. E o risco de infecção e de formação de cicatrizes na córnea pode aumentar”, diz Gupta.
Ela afirma que, especialmente diante de sintomas como irritação, oscilação da visão ou vermelhidão, vale procurar um especialista em saúde ocular.
Opções de tratamento
O olho seco é uma condição crônica, portanto não tem cura. Mas atualmente existe uma ampla variedade de tratamentos capazes de proporcionar alívio — desde cuidados caseiros, como compressas mornas e colírios vendidos sem receita, até medicamentos prescritos. Também há procedimentos feitos no consultório para melhorar o funcionamento das glândulas produtoras de óleo nas pálpebras, embora possam ser caros e muitas vezes não tenham cobertura do seguro de saúde.
Gormley diz que mudanças no estilo de vida também podem ajudar, como reduzir o tempo diante das telas e fazer mais pausas ao longo do dia. Ela recomenda consumir bastante alimentos como salmão, nozes e linhaça, ricos em ácidos graxos ômega-3, para ajudar a melhorar o funcionamento das glândulas das pálpebras. Embora os estudos sobre suplementos de ômega-3 para o olho seco tenham apresentado resultados mistos, Gormley e Gupta dizem que, pela experiência clínica, já observaram benefícios em pacientes que os consomem.
Segundo Gormley, muitas vezes é preciso fazer um trabalho de investigação para identificar todos os fatores que contribuem para o olho seco de cada paciente — e experimentar diferentes alternativas até encontrar a combinação adequada de tratamentos para cada caso.
“Quando você começa a identificar de onde vem o olho seco e passa a tratar a condição específica daquele paciente”, afirma Gormley, “isso faz uma enorme diferença”.
Fonte: npr.org


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