Ameaças ao povo Yanomami ganham atenção ao redor do mundo. Com a exposição no The Shed, em Nova York, o patrimônio cultural de um povo ultrapassa fronteiras.
Um grupo étnico com uma rica cultura e longa história, os Yanomami tornaram-se notícia mundial por causa de uma tragédia humanitária: fome e a destruição de seu território, que se estende por dois estados brasileiros e penetra na Venezuela, e a invasão por milhares de garimpeiros.
Ao mesmo tempo em que as imagens dramáticas dos efeitos mortais da desnutrição circulam na imprensa e nas redes sociais, porém, a beleza da cultura Yanomami também se torna notícia e motivo de celebração graças a uma exposição em um importante museu em Nova York.
As imagens resultam de um encontro entre uma fotógrafa suíça e povos indígenas da Amazônia. Cláudia Andujar visitou as aldeias Yanomami pela primeira vez em 1970 e viu sua própria história refletida naquele povo. “Todos os meus parentes, exceto minha mãe, morreram em um campo de concentração”, diz a fotógrafa.
A família judia foi vítima do holocausto na Segunda Guerra Mundial. Os Yanomami se tornaram uma missão: “Um povo que eu quero que continue a viver e não ‘morra’ como toda a minha família morreu por causa do nazismo”, diz Cláudia Andujar.
A fotógrafa começou a registrar o dia a dia dos Yanomami. Ela denunciou os impactos da mineração, a invasão do homem branco, doenças, desnutrição e prostituição.
“A narrativa da exposição mostra esse mundo e essa sociedade que por milhares de anos viveu em certa harmonia, integrada à natureza, respeitando a natureza, e que, aos poucos, está sendo exterminada e atacada pela sociedade não indígena que não vê e não sabe respeitar a natureza”, explica Thyago Nogueira, curador da exposição.
Eles servem como registros históricos de uma floresta, de um povo que não é mais o mesmo dos anos 1970. As fotos chamam atenção para uma luta pela sobrevivência, pela vida, e dão voz a um grito de socorro.
A indígena Ehuana Yaira diz que os garimpeiros de ouro se aproximaram novamente das aldeias, e eles estão sofrendo muito. Seus desenhos, pinturas e vídeos de outros artistas Yanomami também ilustram a relação indígena com a floresta.
A exposição já estava planejada, mas ganhou ainda mais destaque agora.
O xamã e líder indígena Davi Kopenawa entende o poder dessas imagens. Há mais de 30 anos, elas se espalham pelo mundo e ajudaram no movimento pela demarcação das terras Yanomami, que ocorreu em 1992.
Na época, o xamã foi a Nova York pedir apoio após receber um prêmio do programa da ONU para o meio ambiente.
“É o mesmo problema que voltou para a terra Yanomami. Por isso estou aqui para falar novamente”, diz Davi Kopenawa.
A nova denúncia chamou a atenção da comunidade acadêmica da Universidade de Princeton, uma das mais reconhecidas nos Estados Unidos.
O antropólogo e pesquisador Agustín Fuentes diz que hoje há muitas crises, como a da floresta e do clima. E que os Yanomami podem nos ajudar a enfrentá-las se aprendermos a trabalhar juntos.
“Estou pedindo a proteção da vida e da cultura para continuarmos vivendo em nossa terra mãe. Para não acabar com o meu povo, vocês têm que cuidar”, diz Davi Kapenawa.
VIVIANE FAVER
Jornalista
vfaver@gmail.com


