Em uma pequena torrefadora industrial em Washington, D.C., o aroma nozesado e convidativo do café torrando paira denso no ar. É onde a Lost Sock Roasters, uma empresa local, torra e embala seus grãos de café.
Após quase uma década gerenciando a empresa, Jeff Yerxa diz que o forte aroma de café mal registra mais. “Eu nem sinto o cheiro dele mais”, diz ele rindo.
Mas algo mais está chamando sua atenção estes dias: tarifas.
O presidente Trump anunciou planos para impor uma tarifa de 50% sobre todos os bens do Brasil – o maior produtor mundial de café e fonte de cerca de 30% das importações de café dos EUA. Essa ameaça iminente de tarifa enviou ondas de choque pela indústria de café dos EUA, gerando temores especialmente entre pequenas torrefadoras como a Lost Sock.
“Quando as pessoas vão à cafeteria local, seja Starbucks ou outra, em grande parte elas provavelmente estarão comprando alguma forma de café brasileiro”, diz Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics. “Uma tarifa de 50% matará esse mercado.”
Yerxa diz que está tentando não reagir até conhecer os detalhes finais, mas afirma que as margens de lucro já são apertadas. “É a incerteza que provavelmente é o pior.”
“No final das contas, o consumidor é quem vai arcar com o peso disso”, diz ele. “Não quero aumentar os preços, mas estamos vendo custos 30% mais altos no café, potencialmente.”
A mensagem de Trump soa vazia para donos de empresas
A administração Trump defende sua política comercial e as dezenas de tarifas sobre diversos países como necessárias para proteger empregos americanos, renegociar acordos comerciais e reduzir o déficit comercial.
Para torrefadores como Yerxa e Colby Barr, CEO da Verve Coffee Roasters, grande parte do raciocínio da administração cai por terra. Os EUA, além de pequenas fazendas de café no Havaí e na Califórnia, não produzem café na escala em que os americanos o consomem.
“É um imposto nas manhãs dos americanos”, diz Barr.
Os últimos anos foram voláteis para a indústria do café, contribuindo para um grande aumento nos preços de mercado do café mesmo no último ano, diz Barr. A volatilidade de preços pode ser atribuída, em parte, à pandemia de COVID-19 e colheitas consecutivas de baixa produtividade de café no Brasil no último ano, diz Yerxa. Essas colheitas fracas, por sua vez, devem-se à seca e altas temperaturas e, de forma mais geral, às mudanças climáticas, que impactaram negativamente as colheitas de café por vários anos.
Por que os clientes pagarão mais
Tanto café nos Estados Unidos vem do Brasil por causa da capacidade de produção em grande escala do país, baixos custos, clima favorável e perfil de sabor, dizem Yerxa e de Bolle.
“A maior parte da indústria depende desses cafés para formar a espinha dorsal de suas misturas”, diz Yerxa, referindo-se à mistura de grãos de diferentes regiões.
A Lost Sock, a empresa de café de D.C., é mais conhecida por cafés single-origin de alta gama obtidos de quase uma dúzia de países por ano. Mas ela usa grãos brasileiros em algumas de suas misturas – produtos que derivam de suas relações de longa data com duas cooperativas no Brasil.
Levar esses grãos do Brasil para D.C. é um processo longo que envolve parceiros internacionais, contratos negociados meses ou anos antes e muito planejamento. A Lost Sock coordena com produtores e exportadores, e faz pedidos para quantidades específicas de grãos específicos de fazendas brasileiras específicas, exporta o café e o armazena em um depósito nos EUA.
O importador adiciona uma margem para logística, e Yerxa então incorpora esse preço final por libra nos preços de atacado e varejo da Lost Sock.
E onde as tarifas entram?
Isso inicialmente é algo que o importador teria de pagar assim que trouxer os grãos para os EUA, diz ele. “Essa tarifa seria apenas mais um item na fatura que recebemos ao liberar esse café. E então, para nós, pegamos o preço desse café, e novamente ele é adicionado ao preço por libra desse café, quando definimos os preços para atacado e varejo.”
De Bolle explica que, se as tarifas entrarem em vigor em 1º de agosto, pode levar alguns meses para que os clientes sintam aumentos de preço em cafés ou restaurantes. Isso porque esses negócios geralmente compram em grandes quantidades e têm estoque de café que pode durar um tempo – estoques como esse podem durar alguns meses, diz ela. Pessoas que compram seus grãos de café no supermercado podem sentir os impactos das tarifas mais rapidamente.
“Para pessoas que não estocam, ou seja, o consumidor regular que vai ao supermercado… e pega seu café, talvez esses aumentos de preço sejam sentidos mais cedo”, diz de Bolle, acrescentando que o café é perecível e estocar grãos só leva um negócio, ou consumidor, até certo ponto.
Os efeitos em cascata
A longo prazo, se parecer que essas tarifas vão perdurar, a Lost Sock pode ter de considerar abandonar o uso de cafés brasileiros em algumas misturas, diz Yerxa. No entanto, romper parcerias de longa data no Brasil realmente não é uma opção para ele.
Mas, se os preços do café brasileiro subirem, as torrefadoras correrão para comprar de outras fontes, alerta Barr, da Verve Coffee. E esses outros países produtores de café, como o Vietnã, também enfrentam tarifas.
“É realmente, realmente difícil, e mais como impossível, preparar-se de verdade para isso”, diz Barr. “As tarifas não ajudam o produtor de café. Não ajudam as pequenas e médias empresas pelo país, e não ajudam o consumidor. Por que estamos fazendo isso?”
Fonte: npr.org por Jaclyn Diaz



