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Peak Season com Rômulo Engelhard: além dos rios marajoaras

Meu convidado de hoje é o empresário Rômulo Engelhard, natural do interior do Pará em Soure na Ilha do Marajo, nascido em 1979. Naquele ano, Rômulo era o mais novo integrante dos 14.000 habitantes. Filho de Reginaldo e Vilma Engelhard, sua infância muito rígida baseada em valores e princípios muito fortes, longe da modernidade e das tecnologias disponíveis hoje.

Aos 17 anos, ele para um colégio interno, com regime militar com mais de 600 internos, onde saiu com seus 20 anos de idade com a formação em Técnico em Agropecuária que lhe deu toda base para conquistar um futuro promissor. Casou-se com a empresária e jornalista Brenda Engelhard Brenda,  pai de três filhos, hoje ele representa a combinação rara de técnica, estratégia e liderança inspiradora.

Atualmente, Rômulo é um dos nomes mais respeitados do agronegócio brasileiro, à frente da Engelhard — empresa consolidada há mais de duas décadas na exportação de gado vivo e referência em tecnologia, biotecnologia e logística para segurança alimentar global.

Aryane Garcia – Durante a sua adolescência, em algum momento você imaginou estar na posição que se encontra hoje?

Rômulo Engelhard – Eu não imaginava estar onde estou hoje. No colégio interno, longe de casa e sob um regime rígido, aprendi cedo o valor da disciplina e da resistência. Aquela rotina me ensinou que o sucesso nasce do esforço contínuo e da determinação. Sempre admirei pessoas com grande poder de oratória e liderança — percebi que o conhecimento é o verdadeiro poder. Desde então, decidi que ninguém me tiraria isso.

AG – Ainda na sua infância, você era influenciado por quais artistas que hoje perderam a referência com a revolução digital e o advento da internet?

Rômulo –  Na minha infância, a televisão era limitada e a internet inexistente. Não tive referências artísticas. Minha maior influência foi o meu avô, Rodolpho Engelhard — um homem respeitado, de visão à frente do seu tempo, postura firme e presença marcante. Ele foi meu primeiro exemplo de liderança e caráter.

AG –  Após anos de aprendizado, tornar-se um profissional reconhecido na sua área lhe traz facilidades para opinar em outros setores do mercado?

Rômulo –  Sim. O reconhecimento profissional abriu portas e me colocou em contato com nomes que sempre admirei na pecuária e em outros setores. Lembro-me de uma ligação de um grande ícone da exportação de gado vivo — alguém que eu via como inalcançável. Naquele momento percebi que havia chegado ao mesmo nível de diálogo e autoridade. Foi uma confirmação silenciosa de que o esforço e o mérito constroem credibilidade real.

AG – Entre os seus hábitos produtivos durante a semana, existem preceitos que foram adaptados por você e hoje são repassados a seus colaboradores?

Rômulo –  Sim. Sempre reforço três princípios fundamentais: Primeiro, pensar grande e agir no detalhe. Grandes resultados vêm de pequenas ações consistentes. Segundo, exercer paciência estratégica — o imediatismo destrói boas ideias. E terceiro, buscar aprendizado contínuo. O conhecimento é o único ativo que ninguém pode nos tirar. Esses hábitos moldam equipes fortes e negócios duradouros.

AG –  Qual o seu panorama sobre a situação econômica do Brasil nos últimos 20, 10 e 5 anos?

Rômulo –  Nos últimos 20 anos, o Brasil desperdiçou oportunidades únicas. Tivemos ciclos de commodities e avanços sociais, mas faltou planejamento de longo prazo. Nos últimos 10 anos, a polarização política e a crise institucional travaram o desenvolvimento e afastaram investimentos. Nos últimos 5 anos, apesar da resiliência do agronegócio, seguimos estagnados estruturalmente. Somos potência agrícola e energética, mas ainda reféns de um Estado centralizador e de uma cultura que desestimula o empreendedorismo. O Brasil tem força para ser a terceira maior economia do mundo — mas precisa de direção e coragem.

AG – Fazer parte do agronegócio, o setor mais lucrativo do Brasil, lhe ajuda a compreender a situação social do país? Quais são seus planos para promover inclusão de jovens e mulheres no setor?

Rômulo –  Sem dúvida. O agro é o setor mais técnico e competitivo do país. Ele reflete tanto as virtudes quanto as deficiências do Brasil. Já tentei recrutar jovens recém-formados e percebi uma grande falha estrutural: falta preparo técnico e visão prática.Por isso, defendo a criação de centros de capacitação e programas de estágio voltados ao agro, para transformar talento em competência real. Jovens e mulheres têm espaço no setor — desde que munidos de conhecimento e disciplina. A meritocracia é o caminho para inclusão e prosperidade.

AG – Como o agronegócio permanecerá em alta nos próximos anos, segundo o seu ramo de atuação?

Rômulo –  O agro brasileiro seguirá em expansão. O mundo precisa dobrar sua produção de alimentos, e o Brasil é essencial nesse processo. Temos escala, tecnologia e clima favorável. Na pecuária e biotecnologia, o futuro está na eficiência produtiva e na sustentabilidade. A demanda crescente de países asiáticos e árabes reforça nossa relevância. Com inovação em confinamento e uso de forragem hidropônica, o país se posiciona como líder absoluto em proteína animal e segurança alimentar mundial.

AG – O agro enfrenta desafios para comunicar sua importância ao mundo?

Rômulo –  Sim. Há uma narrativa global equivocada que tenta colocar o Brasil como vilão ambiental. Ignora-se que temos um dos modelos de produção mais sustentáveis do planeta. Precisamos comunicar melhor a verdade: o agro brasileiro preserva, produz e alimenta. É o setor que mais gera divisas, empregos e equilíbrio social — e ainda assim é injustamente atacado. Falta estratégia de comunicação à altura da nossa grandeza.

AG – Como convencer a sociedade de que o agro não é o principal responsável pelo aquecimento global?

Rômulo –  A desinformação criou mitos. O gado brasileiro, por exemplo, não é vilão climático — o metano bovino é parte de um ciclo natural e se converte novamente em CO₂ e água em poucos anos, ao contrário do carbono fóssil que permanece por séculos. A Amazônia é alvo de manipulações. A umidade vem majoritariamente do oceano Atlântico, e não apenas das árvores. É preciso romper com dogmas e mostrar que o agro é solução, não problema. O Brasil é uma potência agroambiental que produz com ciência, tecnologia e responsabilidade.

AG – A popularidade dos produtores rurais está em risco? Por que há tentativas de demonizar o setor?

Rômulo –  Sim, há uma tentativa deliberada de enfraquecer a imagem do produtor rural. Criou-se uma divisão de classes falsa, onde o agro é visto como elite. Essa narrativa mascara o fracasso do Estado em prover educação e desenvolvimento. Enquanto o produtor gera empregos e riqueza, é acusado injustamente de causar problemas ambientais. O caminho é a união. O Brasil precisa de uma federação nacional forte do agro, com voz única, banco próprio e poder institucional para defender quem realmente sustenta a economia.

AG – Quais os maiores nomes do agronegócio que influenciaram sua trajetória?

Rômulo –  Os maiores influenciadores da minha vida não foram celebridades do agro, mas pessoas com quem convivi. Meu avô Rodolpho Engelhard, exemplo de caráter e visão. O Dr. Bill, da Agroquina, que me ensinou que grandes negócios exigem o mesmo esforço que os pequenos. E Clynton Olanda, que me desafiou a empreender. Foi dele a provocação que deu origem à Engelhard. Essas pessoas moldaram minha mentalidade e reforçaram meu compromisso com a excelência.

AG – Você acredita que o Brasil pode enfrentar uma recessão econômica? Como se blindar de uma crise alimentar?

Rômulo –  O país já vive uma recessão velada. O poder de compra caiu drasticamente e o câmbio nos empobreceu em dólar. Para se proteger, o Brasil precisa de gestão fiscal séria, investimento pesado em logística e industrialização da produção agrícola e mineral. Devemos agregar valor aqui dentro, gerar empregos e reduzir a dependência de políticas assistencialistas. Com coragem e estratégia, podemos transformar riqueza natural em prosperidade real.

AG – Se pudesse criar leis que favorecessem o agro e o povo brasileiro, quais seriam suas propostas?

Rômulo –  Educação técnica obrigatória no ensino médio. Autonomia científica com gestão público-privada em pesquisa agropecuária. Reforma do funcionalismo para premiar produtividade. Redução da máquina federal e mais autonomia aos estados. Transparência e controle sobre ONGs estrangeiras. Industrialização das riquezas nacionais. Imposto zero sobre alimentos. Investimento maciço em infraestrutura logística. Desburocratização radical para exportação e crédito rural. E um Plano Nacional Permanente do Agro, que transcenda governos e consolide o Brasil como potência alimentar mundial.

AG – Qual a maior contribuição que esta geração pode oferecer ao Brasil nos próximos 30 anos?

Rômulo –  Essa geração tem o poder da informação, mas precisa recuperar os valores da disciplina e da responsabilidade. Tecnologia sem propósito é desperdício. O Brasil precisa de jovens com coragem para inovar, mas também com ética e paciência para construir. Se conseguirmos unir tecnologia, mérito e propósito, seremos uma nação imbatível.

AG – Se pudesse escolher uma cidade brasileira para viver até o fim da vida, qual seria e por quê?

Rômulo –  Brasília e Florianópolis. Brasília alimenta minha mente estratégica — é o centro das decisões e do poder. Florianópolis alimenta minha alma — é inovação, natureza e equilíbrio. Essas duas cidades representam o Brasil que acredito: forte, inteligente e humano.

O agronegócio brasileiro é o alicerce que sustenta nossa economia e nossa soberania. Alimentamos o mundo, geramos emprego, movimentamos o PIB e preservamos o meio ambiente com tecnologia e ciência. No entanto, seguimos reféns de narrativas ideológicas que distorcem nossa imagem e tentam enfraquecer a confiança global no Brasil.

Chegou a hora de assumirmos nossa verdadeira identidade: a de potência agroambiental mundial. O Brasil precisa parar de pedir licença para crescer. Precisamos de políticas baseadas em mérito, educação técnica e autonomia produtiva. É o setor privado — e não o Estado — que move a nação. O futuro pertence a quem acredita no trabalho, na disciplina e na verdade.

E é essa verdade que o agronegócio brasileiro carrega nas mãos: não destruímos — produzimos. Não dividimos — multiplicamos. Não dependemos — construímos.

ARYANE GARCIA
Jornalista
@aryanegarcia


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