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Peak Season com Gustavo Spadotti: o novo cenário do agronegócio no Brasil

Meu convidado de hoje é Gustavo Spadotti Amaral Castro, 42 anos. Natural de Botucatu, interior de São Paulo. Gustavo tem raízes em Pardinho, onde seus pais mantêm a propriedade herdada dos avós, Anna Pillan e Horeste Spadotto – história registrada em um dos capítulos do livro Da Porteira para o Mundo, cuja capa foi uma generosa contribuição de Gustavo.

Filho de Sérgio Amaral Castro, bancário aposentado, produtor rural, e de Luzia Spadotti Amaral Castro, também bancária aposentada, filha de produtores rurais da região de Lençóis Paulista e Botucatu. Gustavo tem dois irmãos: Tharsila e Sérgio Filho. Casado com Natália Corniani com quem tem dois filhos: Laura e Benício.

Gustavo Spadotti é engenheiro agrônomo formado pela Unesp de Botucatu com mestrado (2009) e tese de doutorado (2012) em Fitotecnia e Sistemas de Produção Agrícolas. Atualmente, Spadotti atua como Chefe-Geral da Embrapa Territorial.

Aryane Garcia – Durante a sua adolescência, em algum momento você imaginou estar na posição que se encontra hoje?

GUSTAVO – Na adolescência eu sonhava em trabalhar com a terra e com as pessoas do campo, mas nunca imaginei que chegaria à posição de liderar um centro estratégico da Embrapa, a paixão nacional do Agro. O que me movia era o desejo de contribuir para um setor mais justo, sustentável e produtivo. Hoje, olhando para trás, percebo que cada desafio e cada aprendizado me prepararam para ocupar essa função de liderança, que exige tanto técnica quanto sensibilidade humana.

AG – Ainda na sua infância, você era influenciado por quais artistas que hoje perderam a referência com a revolução digital e advento da internet?

GUSTAVO – Na infância e adolescência, eu era muito influenciado pela música sertaneja de raiz. Tião Carreiro segue lembrado, mas nomes como Pedro Bento e Zé da Estrada, que eram da região de Botucatu, me marcaram profundamente. No cenário internacional, sempre admirei Miguel Aceves Mejía, cantor mexicano que influenciou os primeiros sertanejos brasileiros com suas toadas, rancheras e huapangos. São artistas que carregavam em suas letras e melodias uma ligação forte com o campo, a amizade e a simplicidade da vida rural — valores que trago comigo até hoje. Mas confesso que também sou do samba e gosto de country.

AG – Após anos de aprendizado, tornar-se um profissional reconhecido na sua área lhe traz facilidades laborais para opinar em outras áreas/empresas do segmento?

GUSTAVO – Sim. Quando você constrói uma trajetória baseada em conhecimento técnico e em resultados concretos, naturalmente é convidado a dialogar em outras áreas do agro. A inteligência territorial, que é a especialidade da Embrapa Territorial, conecta logística, meio ambiente, produção, comércio exterior, políticas públicas e até questões sociais. Por isso, sinto que minha experiência me permite contribuir em diferentes espaços do setor, sempre com responsabilidade e respeito aos especialistas de cada área.

AG – Entre os seus hábitos produtivos durante a semana, existem preceitos adaptados por você que foram inseridos na sua rotina e que hoje você os aconselha para seus demais colaboradores e colegas mais jovens de trabalho?

GUSTAVO – Um hábito essencial é a disciplina na organização do tempo. Eu costumo dividir minha agenda em blocos de prioridades, conciliando compromissos de gestão, ciência e família. Também incentivo os mais jovens a manterem curiosidade intelectual, inerente dos cientistas: nunca parar de estudar, ler, aprender, fazer perguntas e, principalmente, debater. E, talvez o mais importante, sempre reforço a ética e o respeito às pessoas, porque o agro é feito por gente e para gente. Contudo, uma dica de ouro é sempre se cercar de boas pessoas, mantendo haters e pessoas destrutivas longe.

AG – Qual o seu panorama sobre a situação econômica do Brasil nos últimos 20, 10 e 5 anos?

GUSTAVO – Nos últimos 20 anos, o Brasil viveu momentos de instabilidade e também de grandes desafios. O agronegócio foi, em todos eles, um setor essencial para sustentar a economia com ciência, tecnologia e inovação. Nos últimos 10 anos, tive a oportunidade de liderar e participar de projetos estratégicos que ajudaram a mostrar a força do agro, como o estudo da Macrologística Agropecuária e a delimitação do Matopiba. Ambos contribuíram para estruturar políticas públicas e decisões estratégicas de investimento para redução do custo Brasil e para viabilizar o desenvolvimento territorial em bases sustentáveis de nossas fronteiras agrícolas. Já nos últimos 5 anos, o avanço do big data e das geotecnologias ampliou nossa capacidade de compreender e comunicar o mundo rural, revelando com clareza como o campo brasileiro é produtivo e, ao mesmo tempo, conservacionista. Esse olhar estratégico é essencial para orientar o crescimento sustentável do país e defender nosso país de narrativas que visam macular a imagem do nossos produtores rurais.

AG – Das mais diversas dificuldades e oportunidades que você encontrou no decorrer da sua carreira, fazer parte do agronegócio lhe ajuda a entender a situação social do país? Quais são seus planos para colaborar com a inclusão dos jovens e mais mulheres no setor?

GUSTAVO – Sim. O agro me mostra diariamente como o Brasil é diverso e desigual, mas também como há oportunidades imensas de inclusão. Para que jovens e mulheres ocupem mais espaço no setor, precisamos investir em formação, acesso à informação e reconhecimento. Só há um jeito dos excluídos prosperarem: Cooperativismo. Tenho trabalhado para abrir caminhos nesse sentido, mostrando que a ciência, as tecnologias digitais e a gestão territorial estratégica são áreas em que novos talentos podem florescer e promover uma organização social. Quanto mais diverso for o agro, mais inovador e justo ele será. Com a difusão da Internet das Coisas (IoT), o jovem rural estará mais seduzido a suceder seus pais na gestão das propriedades brasileiras.

AG – Como o Agronegócio permanecerá em alta nos próximos anos?

GUSTAVO – Acredito que o agro brasileiro continuará crescendo porque tem três caminhos muito claros pela frente para atender à expectativa de responder por quase metade do crescimento global da produção de alimentos até 2050:

Aumentar a área plantada – de forma criteriosa, com precisão e só quando for realmente necessário.
Elevar a produtividade dos cultivos – reduzindo as chamadas “folgas de produtividade”, ou seja, a diferença entre os agricultores mais eficientes e a média geral.
Intensificar o uso do solo – por meio de práticas como segunda safra, adubos verdes, rotação de culturas e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
Esse conjunto de estratégias, aliado à ciência e à tecnologia, é o que garante que o agro brasileiro permanecerá em alta, crescendo com sustentabilidade. Trago sempre o exemplo do poder da irrigação para viabilizar múltiplas safras no mesmo território, sendo que o Brasil tem um potencial imenso de explorar esta tecnologia de forma sustentável.

AG – Em níveis globais, o Agro enfrenta desafios para comunicar ao mundo a sua importância no impacto de toda a cadeia produtiva?

GUSTAVO – Sim, esse é um dos grandes desafios. Muitas vezes a narrativa sobre o agro é dominada por visões simplificadas ou distorcidas, que não mostram a realidade da produção brasileira. O Brasil é um dos países que mais protege, preserva e conserva áreas nativas e, ao mesmo tempo, é o maior exportador liquido de alimentos do planeta. Um país dessa magnitude de produção, ter ainda 66% do território dedicado ao meio ambiente e um triunfo da ciência em prol do equilíbrio entre produção e preservação. O desafio é comunicar essa singularidade com dados, transparência e histórias reais de quem está no campo. É por isso que valorizo tanto a aplicação dos métodos de inteligência, gestão e monitoramento territorial estratégicos, que nos permite mostrar com precisão o que acontece nos territórios agropecuários.

AG – Como convencer a sociedade de que o Agro não é o principal responsável pelo aquecimento global? Qual a notícia ou manchete que deve ser desmentida por ter prejudicado falsamente o setor?

GUSTAVO – Com dados. O Brasil produz em menos área do que se imagina e conserva muito mais do que outros grandes produtores. O principal responsável pelo aquecimento global é a queima de combustíveis fósseis, não a agricultura. Nosso agro, além de alimentar o mundo, é protagonista em energia limpa: temos mais de 90% da matriz elétrica renovável e somos referência em etanol, biodiesel, biogás e SAF. Por isso, é falso dizer que “o agro brasileiro é o maior vilão ambiental do mundo”. Temos, sim, desafios a enfrentar, mas também uma das agriculturas mais eficientes, inovadoras e sustentáveis do planeta. O que convence a sociedade é a transparência, a apresentação de informações claras sobre preservação, produtividade e compromisso com o futuro.

AG – A popularidade dos produtores rurais está em risco? Quais seriam os motivos para a demonização da composição ruralista?

GUSTAVO – Sim, porque muitas vezes a imagem do produtor é distorcida por estereótipos e números jogados ao vento sobre queimadas, desmatamento ou grilagem. Quando esses crimes existem, são casos de polícia, não representam quem produz alimentos para o Brasil e o mundo. A maioria dos agricultores trabalha duro, respeita a lei e busca sustentabilidade. A demonização vem da distância entre campo e cidade, alimentada por informações incompletas ou interessadas (como fiz o jargão: Follow the Money!). Precisamos reduzir esse abismo e mostrar o rosto humano do produtor, valorizando sua real contribuição à sociedade.

AG – Quais os maiores nomes do Agronegócio brasileiro e mundial que influenciaram a sua vida?

GUSTAVO – No Brasil, admiro grandes lideranças que marcaram o agro em diferentes frentes. Na linha política, destaco Alysson Paolinelli, indicado ao Prêmio Nobel da Paz, e ministros como Roberto Rodrigues, Francisco Turra e Antônio Cabrera, este último reconhecido como um dos doutores da liberdade econômica. Na linha acadêmica, foram decisivos os mestres que uniram química, física e biologia do solo, como Eurípedes Malavolta e seus discípulos Godofredo Vitti e Ciro Rosolem, além de Johanna Döbereiner, referência mundial em fixação biológica de nitrogênio. Entre os contemporâneos, admiro pesquisadores como Carlos Crusciol e Mariangela Hungria. No campo da inteligência territorial e da visão integrada do agro brasileiro, nomes como Eliseu Alves e Evaristo de Miranda são os expoentes. No setor privado, tenho grande respeito pelos fundadores e mantenedores de empresas nacionais como Jacto, Jumil, Stara e Baldan, que foram fundamentais para a mecanização do nosso agro. Também admiro o trabalho das cooperativas brasileiras, que transformam pequenos produtores em gigantes da competitividade. Exemplos como a Coamo, a C.Vale, a Lar e a Cocamar mostram como a união fortalece o campo, amplia mercados e gera prosperidade compartilhada. Em nível global, destaco Norman Borlaug, pai da Revolução Verde e Prêmio Nobel da Paz, que mostrou como a ciência pode salvar milhões da fome, além de ter se rendido ao Agro brasileiro. E também John Davis e Ray Goldberg, criadores do termo agribusiness, que ampliou a visão de que agricultura não é apenas produção no campo, mas uma rede que integra ciência, indústria, comércio e desenvolvimento social.

AG – Você acha possível que o Brasil diminua o poder de compra e passe por uma recessão econômica? Como o país poderá se blindar de uma crise alimentar?

GUSTAVO – Toda economia é cíclica e sujeita a crises, mas o Brasil tem um trunfo em sua capacidade única de produzir alimentos em escala, com diversidade e resiliência. Se o milho enfrenta dificuldades, temos o sorgo. Na safrinha, podemos contar com trigo e outros cereais de inverno, além do feijão, amendoim, lentilha e outras leguminosas. Se for preciso diversificar, há ainda cana, laranja, café, eucalipto e até gergelim. E, se a demanda for por proteína animal, podemos ampliar pastagens, adotar confinamentos, fortalecer granjas de suínos e aves ou expandir a aquicultura. Graças à tecnologia tropical, o Brasil dispõe de um leque impressionante de opções para suprir calorias e proteínas em qualquer cenário, algo raro no mundo. Para se blindar de uma crise alimentar, é fundamental investir continuamente em pesquisa, infraestrutura, logística e políticas públicas que assegurem competitividade ao produtor. Isso não só fortalece nossa economia e garante segurança alimentar à população, como também nos permite oferecer excedentes ao mundo, promovendo a paz global contra a fome.

AG – Se você pudesse criar algumas regras sociais que favoreçam a dinâmica produtiva do Agronegócio e do povo brasileiro, quais seriam as suas propostas de lei?

GUSTAVO – Eu proporia três pilares fundamentais. O primeiro, a regularização fundiária em todo o território brasileiro, que é a “mãe de todas as batalhas”: sem isso, não há segurança para investir, produzir e preservar. O segundo é a segurança jurídica, com leis claras e coerentes sobre propriedade e licenciamento ambiental. O terceiro é a educação de qualidade, no campo e na cidade, para acabar com a visão de “nós contra eles”. Campo e cidade são interdependentes: se o agro não planta, a cidade não janta; se a cidade não fornece insumos e tecnologia, o campo não produz.

Além disso, considero essenciais:

1.     Educação rural conectada à ciência e tecnologia, formando novas gerações inovadoras.
2.     Valorização da conservação ambiental junto à produção, reconhecendo quem concilia os dois.
3.     Infraestrutura logística eficiente, reduzindo o custo Brasil e ampliando a competitividade.

Somente com essa sinergia campo-cidade o Brasil poderá se consolidar, de fato, como o supermercado do mundo.

AG – Das mais variadas atitudes que aceleram o crescimento do Brasil, qual a maior contribuição que essa geração poderá entregar que irá impactar os próximos 30 anos?

GUSTAVO – A maior contribuição é unir produção e sustentabilidade. Essa geração tem a oportunidade de provar ao mundo que é possível crescer sem destruir, produzir sem esgotar, inovar sem excluir. Se conseguirmos consolidar essa mentalidade no Brasil, estaremos entregando às próximas gerações um legado de prosperidade e equilíbrio. Ciência e pratica. Juventude e experiência. Cidade e campo. Todos conectados por um bem maior.

AG – Se você pudesse escolher uma cidade brasileira para viver até o último dia de sua vida, qual seria e por quê?

GUSTAVO – Sou muito ligado ao interior de São Paulo, a locomotiva do Brasil. Seja Botucatu, Laranjal Paulista ou Pardinho, também a região da família de minha esposa, São José do Rio Preto, Barretos, Catanduva ou Pindorama. Essas cidades fazem parte da minha história, dos meus valores e das minhas memórias. Mas, acima de qualquer lugar, meu lar está onde minha família estiver.

Também gostaria de acrescentar que acredito profundamente no poder da ciência, da inovação e das pessoas para transformar o agro e o Brasil. Minha missão na Embrapa Territorial é justamente mostrar, com dados e transparência, que é possível produzir mais, conservar melhor e incluir mais gente nesse processo. O agro brasileiro não é apenas números. É feito de histórias, de famílias, de gerações que constroem o futuro do país todos os dias.

ARYANE GARCIA
Jornalista
@aryanegarcia


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