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MONTEIRO LOBATO – Um país se faz com homens e livros

José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu dia 18 de abril de 1882 em Taubaté, São Paulo. Filho de José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Monteiro Lobato. Alfabetizado pela mãe, logo despertou o gosto pela leitura, descobrindo os livros de seu avô materno, o Visconde de Tremembé, dono de uma biblioteca imensa. Leu tudo o que havia para crianças em língua portuguesa.

Desde criança, Monteiro Lobato já mostrava seu temperamento inquieto e aos 10 anos escandalizou sua família, tradicionais fazendeiros do Vale do Paraíba e amigos do Imperador Pedro II, quando se recusou a fazer a primeira comunhão.

Nos primeiros anos de estudante já escrevia pequenos contos para os jornaizinhos das escolas que frequentou.

Aos 14 já dominava o inglês e francês e nessa idade escreveu “Rabiscando, que é a sua redação mais antiga conhecida.

Em 13 de junho de 1898, perdeu o pai, vítima de congestão pulmonar e sua mãe, vítima de uma depressão profunda, morreu no dia 22 de junho de 1899.

Ao nascer, Lobato foi registrado com o nome de José Renato Monteiro Lobato, mas após a morte do pai queria usar a bengala que pertencera ao pai e tinha as iniciais J.B.M.L. gravadas. Por isso, mudou seu nome para que as iniciais ficassem iguais as do pai e desde então passou a se chamar José Bento Monteiro Lobato.

Sob a imposição do avô, em 1900, Lobato ingressou na Faculdade de Direito, embora preferisse estudar Belas Artes.

Era anticonvencional por excelência, dizendo sempre o que pensava, agradasse ou não. Defendia a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que fossem as consequências.

Monteiro Lobato manteve uma amizade duradoura com um dos rapazes com quem morou, Godofredo Rangel e trocaram correspondência por 40 anos, que mais tarde foram reunidas em um livro chamado “A Barca de Gleyre”.

Lobato escrevia também para o jornal da faculdade, quando já mostrava sua preocupação com as causas nacionalistas. Na festa de formatura, em 1904, fez um discurso tão agressivo que vários professores, padres e bispos se retiraram da sala.

1904 formou-se bacharel e no ano seguinte, fez planos de fundar uma fábrica de geleias, mas passou a ocupar interinamente a promotoria de Taubaté, e conheceu Maria Pureza da Natividade de Souza e Castro (“Purezinha”), que morava em São Paulo. Purezinha era neta de Antônio Quirino de Souza e Castro (“Dr. Quirino”), orientador de Lobato em 1900. Em maio de 1907 foi nomeado promotor público em Areias, e casou-se com Purezinha em 1908. Um ano depois nasceu Marta, a primogênita do casal. E com Purezinha teve quatro filhos: Marta (1909), Edgar (1910), Guilherme (1912) e Rute (1916).

Em 1910 associou-se a um negócio de estradas de ferro. Viveu no interior e nas cidades pequenas da região, escrevendo paralelamente para jornais e revistas, como “A Tribuna de Santos”, “Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro” e a revista “Fon-Fon”. Passou a traduzir artigos do “Weekly Times” para “O Estado de S. Paulo” e obras da literatura universal.

Aos 29 anos, Lobato recebeu a notícia do falecimento de seu avô, o Visconde de Tremembé, tornando-se então herdeiro da Fazenda Buquira, para onde se mudou com toda a família. De promotor a fazendeiro, dedicou-se à modernização da lavoura e à criação de animais. Ainda insatisfeito, mas desta vez com a vida na fazenda, planejou explorar comercialmente o Viaduto do Chá, na cidade de São Paulo.

A Fazenda Buquira serviu, posteriormente, de inspiração para os personagens e paisagens de seus livros.

Em 12 de novembro de 1914, o jornal “O Estado de S. Paulo”, na seção “Queixas e Reclamações”, Lobato publicou o seu artigo “Velha Praga”, descrevendo a “queimada”. Crônica mais tarde publicado no livro “Urupês”. O jornal, percebendo o valor daquela carta, publicou-a fora da seção que era destinada aos leitores, no que acertou, pois a carta provocou polêmica e fez com que Lobato escreves-se outros artigos como, por exemplo, “Urupês”, que deu vida a um de seus mais famosos personagens, o Jeca Tatu.

Jeca Tatu era um grande preguiçoso, totalmente diferente dos caipiras e índios idealizados pela literatura romântica de então. Seu aparecimento gerou uma enorme polêmica, em todo o país, pois o personagem era símbolo do atraso e da miséria que representava o campo no Brasil.

A partir daí, os fatos se sucederam: as dificuldades financeiras levaram-no a vender a fazenda Buquira, e a se mudar com a família para São Paulo, com o intuito de tornar-se um “escritor-jornalista”.

Fundou, em Caçapava, a revista “Paraíba”, e organizou, para o jornal “O Es-ado de S. Paulo””, uma imensa e acalentada pesquisa sobre o Saci. Lobato percorreu o interior de São Paulo, durante a Grande Geada de 1918, escrevendo uma importante crônica a respeito. Ainda em 1918, conhecido como o “ano dos 4 G” (Geada, Greve, I Guerra Mundial e Gripe espanhola), Lobato escreveu todos os editoriais de “O Estado de S. Paulo”, uma vez que todos os editorialistas acabaram pegando a gripe espanhola.

Em 20 de dezembro de 1917, publicou “Paranoia ou Mistificação?”, a famosa crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti, que culminaria como o estopim para a criação da Semana de Arte Moderna de 1922. Muitos passaram a ver Lobato como reacionário, mas hoje, após tantos anos, percebe-se que o que Lobato criticava eram os “ismos” que vinham da Europa: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele achava que eram “colonialismos”, “europeizações”. Lobato era a favor de uma arte devidamente brasileira, autóctone, criada aqui. Por isso criticou Malfatti, embora admitisse que ela fosse talentosa.

Em 1918, Monteiro Lobato comprou a “Revista do Brasil” e passou a dar espaço para novos talentos. Nas mãos de Monteiro Lobato, a “Revista do Brasil” prosperou e ele pode montar uma empresa editorial, sempre dando espaço para os novatos e artistas modernistas.

Lobato também foi precursor de algumas ideias muito interessantes no campo editorial. Ele dizia que “livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês”. Com isso em mente, passou a tratar os livros como produtos de consumo, com capas coloridas e atraentes, e uma produção gráfica impecável. Criou também uma política de distribuição, novidade na época: vendedores autônomos e distribuidores espalhados pelo país.

Logo fundou a editora “Monteiro Lobato & Cia.”, depois chamada “Companhia Editora Nacional”. Privilegiava a edição de autores estreantes como Maria José Dupré, com o sucesso “Éramos Seis”.

Monteiro Lobato não utilizava acentos por acreditar que não era útil como forma de representar sons falados na forma escrita e utilizava os pontos de exclamação e interrogação três vezes para representar uma alteração maior na voz.

Em julho de 1918 publicou em forma de livro “Urupês”, com retumbante sucesso. A popularidade fez com que Lobato publicasse também “Cidades Mortas” e “Ideias de Jeca Tatu”.

Em 1920, o conto “Os Faroleiros” serviu de argumento para um filme. Meses depois, publicou “Negrinha” e “A Menina do Narizinho Arrebitado”, sua 1ª obra infantil, e que deu origem a Lúcia, a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo. O livro foi lançado em dezembro de 1920 visando aproveitar a época de Natal. A capa e os desenhos eram de Lemmo Lemmi, um famoso ilustrador da época.

A demanda pelos livros era tão grande que ele importou mais máquinas aumentar seu parque gráfico. Porém, uma grave seca cortou o fornecimento de energia elétrica e o presidente Artur Bernardes desvalorizou a moeda, gerando um enorme rombo financeiro e muitas dívidas ao escritor.

Lobato só teve uma escolha: entrou com pedido de falência. Mesmo assim não significou o fim de seu projeto editorial. Ele já se preparava para abrir a “Companhia Editora Nacional” e assim transferiu-se para o Rio de Janeiro.

A partir daí, Lobato continuou escrevendo livros infantis de sucesso. Além disso sendo um nacionalista convicto, criou aventuras com personagens bem ligadas à cultura brasileira, recuperando inclusive costumes da roça e lendas do folclore.

Lobato fez histórias utilizando-se de personagens brasileiras mixadas a personagens da literatura universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema. Também foi pioneiro na literatura didática, ensinando história, geografia, matemática, física e gramática como parte de suas histórias.

Washington Luís, reconhecendo Lobato um representante promissor dos interesses culturais do país, nomeou-o adido comercial nos Estados Unidos. Lobato escreve confirmando a tese de que “Governar é abrir Estradas”. Monteiro Lobato mudou-se para Nova York e passou a acompanhar todas as inovações tecnológicas estadunidenses.

Foi para Detroit e, em visita à Ford e a General Motors, organizou uma empresa brasileira para produzir aço pelo processo Smith. Com isso, jogou na Bolsa de Valores de Nova Iorque e perdeu tudo o que tinha com a crise de 1929. Para cobrir suas perdas com a quebra da Bolsa, Lobato vendeu suas ações da Companhia Editora Nacional e voltou para São Paulo passando a defender que o “tripé” para o progresso brasileiro seria o ferro, o petróleo e as estradas para escoar os produtos.

Após implantar a “Companhia Petróleos do Brasil”, Monteiro Lobato fundou a “Companhia Petróleo Nacional”, a “Companhia Petrolífera Brasileira”, “Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul”, e a “Companhia Mato-grossense de Petróleo. Por alguns anos, seu tempo foi dedicado integralmente à campanha do petróleo.

Lobato comprou, em 1937, a “União Jornalística Brasileira”, uma empresa destinada a redigir e distribuir notícias pelos jornais. Recebeu convite de Getúlio Vargas para dirigir um ministério de Propaganda, mas Lobato recusou. Numa carta ao presidente, fez severas críticas à política brasileira de minérios. O teor da carta foi tido como subversivo e isso fez com que fosse detido pelo Estado Novo. Lobato foi condenado a seis meses de prisão.

Uma campanha promovida por intelectuais e amigos conseguiu fazer com que Getúlio Vargas concedesse o indulto que o libertaria.

Curiosamente o petróleo no Brasil seria encontrado, por uma ironia da história, em um local chamado Lobato (Salvador), em 1939.

Em 1943 foi fundada a “Editora Brasiliense” que acabou negociando com Lobato a publicação de suas obras completas.

Suas companhias foram liquidadas e a censura da ditadura faz com que Lobato se aproximasse dos comunistas. Lobato recusou o convite para entrar na vida pública, mas enviou uma nota de saudação que foi lida por Luís Carlos Prestes num comício em 1945.

Tornou-se diretor do “Instituto Cultural Brasil-URSS”, mas foi obrigado a se afastar do cargo quando foi levado para ser operado às pressas de um cisto no pulmão.

Em abril de 1948 sofreu um primeiro espasmo vascular que afetou a sua motricidade.

Dois dias após conceder sua última entrevista à Rádio Record, Monteiro Lobato sofreu um segundo espasmo cerebral e morreu às 4 horas da madrugada, ao lado de sua esposa, Maria Pureza (a Purezinha) e sua filha Ruth, no dia 4 de julho de 1948, aos 66 anos de idade. Sob forte comoção nacional, seu corpo foi velado na Biblioteca Municipal de São Paulo e sepultado no Cemitério da Consolação.

Curiosidades sobre Monteiro Lobato

• Monteiro Lobato é um dos primeiros escritores de obras infantis do Brasil e da América Latina. O dia do seu nascimento, 18 de abril, chamado de Dia de Monteiro Lobato é o Dia Nacional do Livro Infantil.

• A Vila do Buquira, onde Monteiro Lobato foi viver e escreveu grande parte de sua obra, recebeu o seu nome. Hoje, a cidade se chama Monteiro Lobato.

• A fazenda situada nessa cidade, herança do seu avô, passou a ser chamada Sítio do Picapau Amarelo, sendo atualmente visitada por muitos turistas.

• Além disso, existem diversas escolas, ruas e bibliotecas no Brasil que levam o nome do escritor.

Frases Conhecidas de Monteiro Lobato

• “Um país se faz com homens e livros.”

• “Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos.”

• “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê.”

• “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.”

• “A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me.”

• “O grau de cultura de um país mede-se pelo preço dos seus livros”

• “De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo.”

• “É errado pensar que é a ciência que mata uma religião. Só pode com ela outra religião.”

• “O livro é uma mercadoria como qualquer outra; não há diferença entre o livro e um artigo de alimentação. (…) Se o livro não vende é porque ele não presta”.

Monteiro Lobato foi um contador de histórias, preso ainda a certos modelos realistas. Dono de um estilo cuidadoso, não perdeu a oportunidade para criticar certos hábitos brasileiros, como a cópia de modelos estrangeiros.


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