Seis anos é um longo tempo para esperar entre álbuns de uma artista emergente, mas Luisa Maita, nascida em São Paulo, parece ter feito a escolha certa nesse caso. Desde o lançamento de seu muito aclamado álbum de estreia Lero- Lero (Cumbancha), ela fez muita turnê (incluindo muitas apresentações nos Estados Unidos), col-laborou com vários músicos brasileiros e coletou vários prêmios em reconhecimento àquele primeiro álbum.
A fórmula de Lero-Lero era bem simples: uma visão moderna de músicas inspiradas em bossa e samba com um toque criativo. Quando ouvi aquele álbum, ela me lembrou um pouco de Marisa Monte, que faz muita experimentação com sua música, mas mantém um firme controle sobre batidas mais tradicionais. Ela poderia simplesmente ter continuado no mesmo caminho e feito mais daquilo, mas claramente decidiu seguir uma direção completamente diferente com seu segundo álbum.
“Fio da Memoria” é mais um álbum de rock-fusion: guitarras distorcidas estão em destaque, mas o ritmo é puro Brasil. Por exemplo, “Olé” tem muita eletrônica rolando, mas a percussão é claramente influenciada pelos sons do Nordeste brasileiro, enquanto “Porão” tem um clima de Maracatu. A faixa-título é um samba elétrico revigorante (próximo ao trabalho de +2 , o coletivo musical sem líder formado por Moreno Veloso, Kassin e Domenico Lanceloti), enquanto “Folia” é samba puro da Bahia, com um grupo percussivo completo por trás da voz de Maita – e pouco mais.
“Fio da Memoria” requer algumas audições para se assimilar completamente – embora a maior parte seja divertida de ouvir, também é música que faz pensar graças aos seus arranjos inteligentes e à forma como os instrumentos são tocados – há bastantes surpresas ao longo da música. Um exemplo disso é “Volta”, uma música que começa com vocais em camadas e uma linha curiosa – até que as baterias entram por trás de uma harmonia em três partes que te leva a um funk lento influenciado pelos anos 70.
Em um ano cheio de tanta música que pouco fazia sentido, “Fio da Memoria” é bastante revigorante – a música é inteligente e prazerosa, tornando este um dos melhores lançamentos de World Music de 2016.
ERNEST BARTELDES
Redator freelancer
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