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PEAK SEASON com Alessandra Nishimura: de herdeira a guardiã

A minha convidada de hoje é a empresária do agronegócio, Alessandra Nishimura. Alessandra nasceu em São Paulo, mas foi criada no interior, na pequena Pompéia — aquele tipo de cidade onde todo mundo se conhece. Formada em Administração de Empresas pela PUC-SP e especialização em Modelos de Gestão pela FIA e International Master Program Liderança Horizontal pela IMO. Alessandra é a terceira geração do Grupo Jacto, com uma história de mais de 70 anos e presença em 5 continentes.

Seus pais, Jiro e Hiromi, ambos com 83 anos, são extremamente ativos até hoje, sempre servindo à igreja e à comunidade. Seu pai iniciou a carreira bem cedo trabalhando com seu avô, e foi presidente da Jacto Agrícola e da Unipac. Depois de deixar o conselho, o senhor Jiro assumiu a presidência da Fundação Shunji Nishimura. A senhora Hiromi teve cinco filhos — de 1971 a 1978 —, cuidou de casa, dos filhos e ainda empreendeu.
São eles: Ariane Kunihiro, Alessandra Nishimura, Fábio Shotaro, Franklim Shunjiro e Andrea Sakuma.

Alessandra cresceu com pés descalços, subindo em árvore, jogando bola na rua e inventando moda na cidade “Foi uma infância bem vivida, eu não trocaria por nenhum eletrônico deste mundo — uma verdadeira escola de vida, que me ensinou sobre simplicidade, respeito e a alegria de estar junto à família.” Há 3 anos, Alessandra casou-se com o empresário Luiz Claudio Mori, mais conhecido como Luizinho Hirata.

Aryane Garcia – Durante a sua adolescência, em algum momento você imaginou estar na posição que se encontra hoje?

Alessandra Nishimura – Nem de longe (risos). Eu não cresci pensando em ser “líder de governança familiar” ou “membro de conselho”. Meu sonho naquela época era bem mais simples — talvez trabalhar com algo criativo, viajar o mundo ou abrir meu próprio negócio. Queria muito trabalhar para uma multinacional, eu não tinha conhecimento da importância da Jacto para o agro. Pensar que meu avô foi o fabricante da primeira colhedora de café do mundo, é algo histórico, mas eu não tinha noção sobre isso, para mim ele era meu avô, criativo e engraçado. Eu trabalhei muito na terapia a questão da minha carreira, do que eu gostaria de fazer e quais eram as minhas habilidades. O difícil é que quando se tem facilidade para fazer várias coisas, fica difícil focar. Mas olhando para trás, percebo que tudo que vivi me preparou para esse papel: ser ponte entre gerações, cultivar diálogo e ajudar a família a crescer unida, mesmo com as diferenças.

Aryane Garcia – Ainda na sua infância, você era influenciado por quais artistas que hoje perderam a referência com a revolução digital e advento da internet?

Alessandra Nishimura – Era outro tempo. Os artistas eram distantes — só víamos na TV ou ouvíamos no rádio. Eu ficava grudada esperando a música certa para gravar em fita cassete (risos). Minha avó recebia novelas japonesas em fitas betamax, e eu assistia com ela — acho que ali nasceu minha alma dorameira. Lia muito — li praticamente toda a coleção Vaga-Lume. Cresci vendo Sítio do Pica-pau Amarelo, Os Trapalhões, e os filmes do Elvis Presley na Sessão da Tarde. Amávamos os gibis da Turma da Mônica; meu pai, o maior fã do Chico Bento e do Asterix.

Era um tempo sem internet, mas com muita imaginação. Não lembro de alguém “influente” em especial — minha maior influência era a própria convivência familiar.

Aryane Garcia – Após anos de aprendizado, tornar-se um(a) profissional reconhecido(a) na sua área lhe traz facilidades laborais para opinar em outras áreas/empresas do segmento?

Alessandra Nishimura – Acredito que sim, mas principalmente porque o respeito vem da coerência. Eu não falo do que não vivi. Aprendi que o que conecta as pessoas não é o título, é a escuta e a sinceridade.
Quando se trabalha com propósito — seja em governança, educação familiar ou agronegócio —, a credibilidade abre portas.
Nos conselhos, o valor está na diversidade: não é preciso saber tudo, mas ouvir e integrar diferentes perspectivas para tomar as melhores decisões.

Aryane Garcia – Entre os seus hábitos produtivos durante a semana, existem preceitos adaptados por você que foram inseridos na sua rotina e que hoje você os aconselha para seus demais colaboradores e colegas mais jovens de trabalho?

Alessandra Nishimura – Gosto de começar o dia tomando café ao sol, olhando o céu — essa conexão com a natureza me dá ânimo. Sou movida pela melhoria contínua, talvez algo da cultura japonesa, ou da minha própria família — somos “a família do conserta-se tudo”. O autoconhecimento também é essencial: quanto mais nos entendemos, melhor somos para nós mesmos e assim para as pessoas ao nosso redor. Mas aprendi recentemente, no mentoring de casais, que o autoconhecimento é importante, mas o “outro conhecimento” é essencial nas relações. Sem saber, foi isso que sempre pratiquei na governança familiar: conhecer tios, tias, primos, investir tempo nas relações.

Esse hábito — de se interessar genuinamente pelo outro — é o coração da boa governança. Quanto tempo você investe na vida das pessoas que são importantes para você com intencionalidade?

Aryane Garcia – Qual o seu panorama sobre a situação econômica do Brasil nos últimos 20, 10 e 5 anos?

Alessandra Nishimura – Como o meu trabalho é muito voltado para as relações familiares e não tanto aos números e economia vou comentar o que meu avô dizia: “O agro tem sete anos bons e sete anos ruins; por isso, prepare-se sempre.” E “Não se desespere, nem sempre é noite — logo vem o dia.” Ou seja, o Brasil é um eterno desafio e uma eterna oportunidade. Há 20 anos, o país vivia ciclos de euforia e queda. Há 10, começamos a entender a força do agro na economia. E nos últimos 5, mesmo com pandemia e turbulências, o setor provou sua resiliência e capacidade de inovação.

Aryane Garcia – Das mais diversas dificuldades e oportunidades que você encontrou no decorrer da sua carreira, fazer parte do agronegócio, o setor mais lucrativo no Brasil, lhe ajuda a entender a situação social do país? Quais são seus planos para colaborar com a inclusão dos jovens e mais mulheres no setor?

Alessandra Nishimura – Com certeza. O agro é um retrato do Brasil: diverso, criativo, resistente. Trabalhar nesse setor me faz ver a desigualdade de perto, mas também o potencial transformador que temos. Como dizia meu avô: “Formar lavrador esse ofício ninguém quer, mas é muito necessário, agricultura não pode parar, se parar o mundo para”. Acreditamos muito na educação como forma de inclusão e crescimento.

A Fundação Shunji Nishimura nasceu do obrigado Brasil, do meu avô. Uma forma de agradecer o país que o acolheu e o ajudou a prosperar. Com o colégio técnico agrícola, formou mais de 800 tecnólogos para o Brasil. Depois de 2010 a Fundação segue sem o colégio de sistema de internado e se transforma com parcerias: o Senai com os cursos profissionalizantes e a modalidade do novo ensino médio que combina a formação geral básica (BNCC) com a formação técnica e profissional. Também com a parceria do Centro Paula Souza, a Fatec Shunji Nishimura oferece dois cursos superiores inovadores: Mecaniza­ção em Agricultura de Precisão e Big Data no Agronegócio. A partir de 2025 passa a oferecer o curso superior de Tecnologia em Sistemas Inteligentes. Desde 2013, ano da primeira formatura até 2023, a Fatec Pompeia formou 911 tecnólogos que atuam em todas as regiões do Brasil e em outros países, principalmente, nos setores do Agronegócio, da Indústria e da Tecnologia da Informação.
Quando lançamos o Uniport 3030, a tecnologia embarcada revolucionou a operação no campo, tornando o pulverizador muito mais fácil e confortável de dirigir — inclusive para as mulheres. A parceria com o curso MAP ampliou ainda mais esse movimento, atraindo alunas e formando novas profissionais. Hoje, é inspirador ver tantas mulheres atuando como operadoras de máquinas agrícolas, e as histórias que ouvimos delas são sempre positivas e cheias de orgulho.

O Colégio Shunji Nishimura de Ensino Básico, utiliza o sistema Poliedro, integra o portal digital TOTVS Família e Layers para comunicação entre escola e responsáveis, adota a metodologia canadense da Master’s Academy & College (Aprendizagem Profunda) — que estimula autonomia, pensamento crítico e aplicação prática — e oferece Projeto Bilíngue no contra turno, além de variados estúdios contemplando música, xadrez, robótica, artes e esportes. O objetivo é a formação integral do aluno, buscando o equilíbrio entre a excelência acadêmica, bem-estar emocional e relacional e o estímulo da espiritualidade.

A transformação na aprendizagem dos alunos tem sido um dos pontos de atenção, levando nosso colégio a ter altas pontuações de Enem e ingresso a excelentes faculdades e universidades com apenas três anos do início do seu Ensino Médio.

No meu trabalho de governança familiar, acredito que a minha família deve ser a que mais compartilhou a sua história no Brasil, somos embaixadores da FBN- Family Business Network, e assim vamos encorajando e inspirando as famílias empresárias a se organizarem, estruturarem para chegarem bem na época de sucessão.

Em dezembro, lanço o curso “De Herdeira a Guardiã”, para compartilhar o conhecimento que acumulei nesses 22 anos de jornada em governança sociofamiliar.

Aryane Garcia – A sua participação diária e ativa com as estatísticas econômicas do Agro lhe entregam uma variedade de oportunidades de crescimento. Na sua opinião, como o Agronegócio permanecerá em alta nos próximos anos – de acordo com o seu ramo de atuação?

Alessandra Nishimura – O agro tem as suas instabilidades, mas vai precisar ser cada vez mais humano e tecnológico ao mesmo tempo. O futuro passa por sustentabilidade, dados, inteligência artificial e, principalmente, propósito. O campo não é mais o “atraso” — é o futuro de uma economia verde e conectada. Temos muito desafios pela frente, e tem muita gente boa batalhando por um Brasil melhor.

Aryane Garcia – De acordo com a sua experiência, em níveis globais, o Agro enfrenta desafios para comunicar com o mundo a sua importância no impacto de toda a cadeia produtiva?

Alessandra Nishimura – Enormes. A gente ainda fala “para dentro”. O mundo urbano precisa entender que o agro não é só trator e soja — é tecnologia, ciência, nutrição e futuro. Falta traduzir o agro em emoção, mostrar as pessoas por trás da produção. Quando o agro aprender a contar suas histórias, o respeito virá naturalmente.

Aryane Garcia – Como convencer a sociedade de que o Agro não é o principal responsável pelo aquecimento global? Qual a notícia ou manchete que deve ser desmentida por ter prejudicado falsamente o setor?

Alessandra Nishimura – Com informação e transparência. A manchete “O agro destrói o meio ambiente” é injusta e ultrapassada. O agro responsável cuida da terra. Precisamos desmentir a ideia de que desenvolvimento e sustentabilidade são opostos — eles andam juntos. O verdadeiro produtor sabe que sem solo saudável, não há futuro. Mas é um assunto muito complicado, cheio de jogo político, mídia etc.

Aryane Garcia – Quais os maiores nomes do Agronegócio brasileiro que influenciaram a sua vida e quais os principais no mundo que lhe fizeram mudar a visão e dinâmica para desbravar o percurso?

Alessandra Nishimura – Vou falar de dentro de casa, minha maior referência é meu avô, Shunji Nishimura, que plantou valores antes de plantar empresas. Porque ele é do tempo que se realmente criava coisas novas, não tinha copia e cola, não tinha google, ou você era inteligente, e criativo ou não era. Era um outro mundo. E a vida do meu avô, a sua dedicação ao agricultor é minha inspiração. Ele criou o primeiro pulverizador nacional e a primeira colhedora de café do mundo, não tem como não me inspirar nele. E não fico aqui, pois a criação é um fato, mas além disso, sempre teve a atitude do” conserta-se tudo” e não abandonar o agricultor. É fidelidade, caráter e honestidade.

Aryane Garcia – Se você pudesse criar algumas regras sociais que favoreçam a dinâmica produtiva do Agronegócio e do povo brasileiro, quais seriam as suas propostas de lei?

Alessandra Nishimura – Primeiro: implantar uma educação empreendedora nas escolas, desde o ensino básico, valorizando o protagonismo e a criatividade dos jovens. Acredito muito nesse movimento e apoio o trabalho que o projeto De Olho no Material Escolar vem realizando junto às escolas, ao estimular o pensamento crítico e o senso de responsabilidade sobre o que é ensinado às nossas crianças.

Segundo: é essencial fortalecer a governança nas famílias empresárias, especialmente no campo. Além das tecnologias e inovações que transformam a produção, precisamos levar informação e formação sobre sucessão, gestão e continuidade dos negócios familiares. Quando uma família entende seus papéis e constrói estruturas sólidas de governança, ela cria as bases não apenas para a prosperidade econômica, mas também para a perpetuação de valores, vínculos e legados.

Aryane Garcia – Das mais variadas atitudes que aceleram o crescimento do Brasil, qual a maior contribuição que essa geração poderá entregar que irá impactar os próximos 30 anos?

Alessandra Nishimura – A consciência. Estamos aprendendo a fazer com propósito — e não só por resultado. Essa geração está quebrando o ciclo do “crescer a qualquer custo”. Acredito que nosso legado será um Brasil mais sustentável, mais empático e menos imediatista.

Aryane Garcia – Se você pudesse escolher uma cidade brasileira para viver até o último dia de sua vida, qual seria e por quê?

Alessandra Nishimura – Provavelmente Pompeia, porque lá estão minhas raízes, a maior parte da minha família estendida está lá. Uma cidade tranquila, gostosa para morar, mas eu gosto muito de viajar e não sei ficar parada em um lugar por muito tempo. Não existe herança mais valiosa que uma família unida e consciente do seu propósito. Desse mundo não levaremos nada, seja um bom mordomo de tudo que Deus colocou em suas mãos e entregue para as próximas gerações. Os bens passam. O legado fica.

ARYANE GARCIA
Jornalista
@aryanegarcia


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