Adolescentes que começam a usar cannabis antes dos 15 anos têm maior probabilidade de usar a droga com frequência mais tarde na vida. Eles também têm maior probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental e física na idade adulta jovem, em comparação com seus pares que não usaram a droga na adolescência.
Essas são as conclusões de um novo estudo publicado no JAMA Network Open.
“Isso reforça ainda mais a ideia de que o uso de cannabis na adolescência afeta negativamente a trajetória [de saúde] daqueles que a usam”, afirma o psiquiatra Dr. Ryan Sultan, da Universidade Columbia, que não participou da nova pesquisa.
O novo estudo utilizou dados do Estudo Longitudinal de Desenvolvimento Infantil de Quebec. Pesquisadores em Montreal, Canadá, acompanham mais de 1.500 crianças desde o nascimento até a idade adulta jovem para entender os fatores que influenciam seu desenvolvimento e sua saúde. Entre os diversos aspectos da vida e dos hábitos dos jovens que os cientistas registraram, está o uso de cannabis entre os 12 e os 17 anos.
Os pesquisadores descobriram que a maioria dos adolescentes — 60% — não usou cannabis na adolescência. Dos 40% restantes, metade começou a usar cannabis no final da adolescência e, aos 17 anos, usava a droga com pouca frequência — menos de uma vez por mês. Os 20% restantes começaram a usar maconha antes dos 15 anos e, aos 17, usavam pelo menos uma vez por mês.
Este último grupo apresentou maior probabilidade de buscar atendimento médico na idade adulta jovem para problemas de saúde mental e física, em comparação com aqueles que não usaram a droga na adolescência.
“O risco se concentra entre aqueles que começam cedo e usam com frequência”, afirma o psicólogo e principal autor do estudo, Massimiliano Orri, da Universidade McGill.
Usuários precoces e frequentes de cannabis apresentaram 51% mais chances de buscar atendimento para problemas de saúde mental na idade adulta jovem, em comparação com aqueles que não usaram a droga. E esse risco foi calculado após o controle de uma série de fatores de confusão que sabidamente influenciam a saúde, como bullying ou falta de envolvimento dos pais.
Da mesma forma, usuários precoces e frequentes de cannabis apresentaram uma probabilidade 86% maior de necessitar de cuidados de saúde física.
“Temos indícios de que problemas respiratórios foram os mais frequentemente relatados, assim como acidentes e lesões não intencionais”, afirma Orri.
Esses problemas de saúde física podem estar relacionados à intoxicação por cannabis, mas também podem ser decorrentes de sintomas de abstinência, escrevem Orri e seus colegas no artigo.
“Isso certamente faz sentido”, diz a psicóloga Krista Lisdahl, da Universidade de Wisconsin-Milwaukee, que também estuda o desenvolvimento e a saúde do cérebro adolescente, mas não participou da nova pesquisa. “É alarmante e algo que realmente precisamos monitorar mais de perto aqui nos Estados Unidos também.”
Um dos principais pontos fortes do estudo é que Orri e seus colegas controlaram muitos fatores de confusão, acrescenta Lisdahl.
“Há muitos fatores que estão interligados tanto com a saúde física quanto com a saúde mental”, afirma Lisdahl. E o novo estudo controlou muitos deles, incluindo “família, conflitos parentais e estilo de criação dos filhos, bem como o monitoramento parental dos adolescentes”. Os pesquisadores também analisaram fatores em nível individual, como habilidades sociais, relacionamentos com os colegas e se o jovem foi vítima de bullying por parte dos colegas.
Estudos anteriores também encontraram uma ligação entre o uso de cannabis na adolescência e um risco maior de desenvolver sintomas de saúde mental.
A pesquisa recente de Sultan constatou uma probabilidade duas a quatro vezes maior de desenvolver transtornos psiquiátricos em adolescentes que usavam cannabis recreativamente, em comparação com adolescentes que não usavam a droga. Outros estudos sugeriram uma ligação entre o uso precoce de cannabis e psicose em jovens. Ele e seus colegas também encontraram um risco maior de outros impactos, como notas escolares mais baixas e absenteísmo.
“O cérebro adolescente continua a se desenvolver de forma muito dinâmica durante a adolescência e até o início da vida adulta”, diz Lisdahl. “O uso regular de substâncias como a cannabis durante esse período pode prejudicar o desenvolvimento neural saudável, especialmente em áreas do cérebro relacionadas às funções executivas, como resolução de problemas, planejamento, controle de comportamentos e impulsos, e regulação emocional”, afirma ela.
Considere, por exemplo, um adolescente propenso à ansiedade que recorre à cannabis para se sentir menos ansioso, diz Sultan. “Se isso se torna um hábito regular, passa a ser o método para lidar com a ansiedade”, explica ele. “Essa se torna a sua principal estratégia de enfrentamento, e a pessoa perde a capacidade de lidar com a ansiedade de outras maneiras.”
O mesmo pode acontecer com alguém que usa cannabis para controlar o humor, acrescenta ele.
Portanto, para alguém que já tem predisposição a alguns sintomas de saúde mental, iniciar o uso de cannabis na adolescência pode aumentar a probabilidade de esses sintomas se agravarem com o tempo, evoluindo para transtornos mentais.
Por todos esses motivos, Sultan — um psiquiatra infantil e adolescente — diz que costuma conversar com adolescentes e pais sobre adiar o uso de cannabis até os 25 anos, para minimizar os riscos de problemas de saúde e comportamentais mais tarde na vida.
Fonte: npr.org por Rhitu Chatterjee




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